A foto de Marta Rocha, com o maiô oficial do desfile, a boca aberta num riso marcado por dentes brancos, o cabelo curto e um tanto cacheado, foi um refrigério na minha infância. Papai o recortou de O Cruzeiro e o pregou na divisória das pratileiras da loja, onde ali ficou até que a loja foi vendida, num final de comércio que eu não pude mais testemunhar. Marta Rocha era tão bonita que parecia ter sido feita na fôrma, de encomenda, talhada na ponta de afiada faca, por artesão experiente. Até um ônibus da empresa de Luiz Prado, o mais bonito, era chamado de Marta Rocha.
          Além de Marta Rocha, o concurso de Miss Brasil nos daria, depois, a figura de Terezinha Morango e Adalgisa Colombo, entre as que os nomes ficaram gravados na cabeça de todos, mulheres bonitas e distantes, que a gente só via nas fotos de O Cruzeiro e, depois, em algum jornal que o cinema passava. Tudo fruto do encanto que o concurso de Miss Brasil proporcionava, na fabricação de mulheres lindas, cujos retratos se espalhavam pelo país inteiro.
          De Itabaiana não saiu uma só miss, posso afirmar com convicção. Mas, brotou uma, de família de gente ceboleira, mais precisamente dos Teixeira Lobo, nascida no Rio de Janeiro, Sergipe adotou como candidata, depois desta ter, no ano anterior, como Miss Bangu, disputado o título de Miss Rio de Janeiro. O nome dela? Helenita Teixeira Lobo, não afirmo com segurança, preso apenas ao fato de sua presença em Itabaiana, durante a semana. Eu fui testemunha de sua visita a casa de Dona Yayazinha, na Rua do Sol. Ao sair, estava eu, na curiosidade de meus nove anos, na calçada, com a recompensa de ter recebido um afago na cabeça da miss. Evidentemente, que não me preocupei em não mais lavar a cabeça.
         De Sergipe, o grito mais forte foi com Maria Isabel Avelar Elias (o nome me ficou fixo), e, salvo engano de memória, posso apontar para o ano de 1962. Terceiro lugar. Ou seja, quase que a gente chega lá, perdendo para uma mulata cariosa (segundo lugar), não me lembrando mais de qual estado saiu a vencedora. O terceiro lugar foi assunto para muitas conversas. É pena que não fosse sergipana. Pelo que comentavam, era mineira, filha de militar, de passagem por Sergipe, residente à rua Pacatuba. Tio Eladio, morando no Rio, visitando a parentada em Aracaju e Itabaiana, trouxe a incumbência, pedido por uma colega de trabalho, de pegar um autógrafo da miss. Para não perder a viagem, pediu a irmã, tia Marizete, que lavrasse o autógrafo, levando em conta que a colega não ia saber da sua inautenticidade.
          O concurso de Miss Brasil trazia um glamour especial, que a gente, em Itabaiana, acompanhava pelas páginas de O Cruzeiro e, depois, da Manchete. O rádio transmitia o desfile, na noite do sábado. O de 1962, por exemplo, eu acompanhei, até tarde, o som bem baixo, na torcida por Maria Isabel Avelar Elias, e, na vibração de ter visto Sergipe em terceiro lugar, a nossa representante, apesar de não ser sergipana, entre as três mais bonitas do certame, naquele ano, além da satisfação de ter matéria para contar a todos, no dia seguinte.
          Outro dia, atraído pela notícia, acompanhei, pela televisão, alguma coisa do desfile de maiô das candidatas a Miss Universo. Achei todas as candidatas bonitas, magras, sorriso nos lábios, dentes estampados, pernas um tanto arqueadas, como se fossem montadoras de cavalo, num estilo totalmente diferente do que imperava em tempos idos. Marta Rocha, que não era magra, nem alta, e, ademais, não apresentava nenhum arco no meio das pernas, não teria vez nos concursos atuais. De minha parte, confesso, o padrão Marta Rocha, ah!, o padrão Marta Rocha continua insuperável. Fico com a Marta Rocha dos tempos de miss e vendo as outras, todas, por preço abaixo da tabela.
Publicado no Correio de Sergipe


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