Patricia Tenório 2 de outubro de 2011

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Lara rodou a chave lentamente na ferrugem da porta. O ranger quebrava o silêncio do apartamento alugado, chão de madeira velha, quarto cozinha banheiro sala se misturando nas cores do fim de tarde. Encostou o cavalete na pia, guardava a aqualera no armário empoeirado.

Esquentou um guisado de outro dia, os vapores acordando fome, poros se atiçavam. Gotas pequenas, salgadas. Ainda havia um pouco de cabernet. Completou o último gole, juntando com as garrafas verdes, azuis, amarelas no canto da lixeira. O perfume inebriando, trazia a noite, a noite que o via, ouvia o cantar do violino, fino, denso. Tocava as cordas brincando, o menino. O menino homem. O menino vivo.

Deixou o vestido amarelo, longo, o avental cair em tubo, rápido, convincente. Trazia mostra do desenho, o quadro original não lhe saindo do espírito. Embebendo pincel na creolina, retirava a pasta grossa e concisa de cada pincelada, cada canto escondido, que descobrira, fizera luz, criatura nascente das mãos delicadas.

Estava úmida a pintura. Poderia mudar os contornos, fazer outras formas, desrespeitar o artista. No realismo cruel, sanguinolento, tirando-lhe a chance da novidade, haveria inspiração? E buscava, buscava o minuto, os dedos correndo o pescoço, espuma lavando um dorso, a nuca, um ventre. A odalisca descendo véu, outra virgem lavando-lhe as costas, os óleos escorreram até o sexo, quente o sexo, flamejava em pedidos dúbios, trazendo a origem do mundo para mais perto, microscópicamente mais perto, nos óvulos e espermas perdidos, nas carnes trêmulas de anseios negados.

As moças do harém levam os sagrados mantos, a cerimônia de núpcias inicia. O linho branco a enxugar-lhe pele, cabelos arrumados em colar de tranças, douradas tranças de fim de tarde. Morde uma cereja, a noiva morde. Deixa o mel entrar-lhe âmago, destempera a silhueta pura, preparada ao senhor das armas.

A espada cortando o tecido desvanece sobre os lençóis de cetim róseo, roçando cadente a cada investida. Um líquido trilha as pernas de Lara enquanto encosta a cabeça na banheira de louça branca.


 

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* Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

** Tepidarium – O banho das odaliscas, de Theodore Chasériau.

Obs: Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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