Ex-Director do INETI (Coimbra)
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A União Europeia está doente e o eixo franco-alemão começa a dar mostras de embaraço. As primeiras equimoses começaram por eclodir na Irlanda, até então considerada um membro saudável. O mal estendeu-se, de modo exacerbado, à Grécia, a Portugal e a outros países que iam tomando, no segredo dos gabinetes, consciência dos graves problemas financeiros em que estavam mergulhados. As doenças da União Europeia só adquiriram contornos visíveis quando da falência do Lehman Brothers – quarto maior banco de investimento dos EUA – que a Administração Americana não quis salvar. Agora, chegou a vez do Dexia, banco franco-belga, que detém uma parte substancial da dívida Grega, razão pela qual Sarkozy está à beira de um ataque de nervos e Angela Merkel menos segura de si. Em 2008, o Dexia já recebera ajuda financeira dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo e também de accionistas.
Enquanto o pensamento dominante atribui a situação da Grécia a gestão danosa camuflada por intrujices nas contas públicas – facto que também acontece com Portugal – há quem considere o mal grego dependente de razões de política externa. Karl Muller culpa as agências de notação que favorecem a especulação e aponta o dedo à agressividade da política de Berlim, que acusa de enriquecer a Alemanha em detrimento dos pequenos parceiros da zona euro. Não obstante ser verdade que o modo de actuar dos ex-líderes democratas cristãos alemães e dos socialistas franceses era bem mais social do que a dos actuais dirigentes neoliberais, é difícil acreditar que a Alemanha esteja a enriquecer à custa dos parceiros frágeis da UE, tendo como objectivo o domínio do Banco Central Europeu. Por outro lado, quando o euro entrou em vigor, os BRIC não passavam de embriões. Os Estados Unidos da América tinham começado a proceder à transferência de tecnologia para a China em troca de mão-de-obra barata, decisão que veio a verificar-se fatal no âmbito da submissão da economia e da política às finanças, esquecido que estava o crash da bolsa de Wall Street, em 21 de Outubro de 1929.
Um ano antes, o presidente americano Herbert Hoover dizia: «estamos mais próximos do triunfo sobre a pobreza do que qualquer outro país». O valor das acções dava passos de gigante em relação à economia. Em “Salve-se Quem Puder”, o historiador Edward Chancellor afirmou «os especuladores tornaram-se surdos aos alertas». Alimentavam boatos sobre riquezas ganhas no mercado por gente humilde. Em Setembro, o índice Dow Jones registrou o pico do ano, a bolsa entrou em fervilhação e depois em queda vertiginosa. O primeiro impacto atingiu cerca de 1,2 milhões de pessoas e, em dois anos, o PIB caiu 60%. Em 1931, faliram mais bancos que durante toda a década de vinte. A falta de dinheiro atingiu transversalmente todo o sistema produtivo. Muita gente optou pelo suicídio e, para se sustentarem, alguns milionários acabaram a lavar pratos. A popularidade do presidente Hoover despenhou-se, arrastando a auto-estima da nação. Os americanos viraram pedintes. Filas por um prato de sopa, um biscate e tanta coisa mais. Nos arredores das cidades, amontoavam-se favelas de lata e cartão e as pessoas esgaravatavam em lixeiras à procura de sustento e muitas pereceram de fome. Os agricultores vagueavam e, nas fazendas abandonadas os restos do gado eram pasto para necrófagos.
Em 1932, uma comissão nomeada para apurar as razões da falência de Wall Street realçou a existência de remunerações excessivas e de fraudes inimagináveis. Finalmente, com um discurso que incentivava a intervenção estatal, o democrata Franklin Roosevelt foi eleito presidente em 1933, apresentando um pacote de medidas para salvar a nação pela via da economia. Caricatamente, os Estados Unidos da América só voltariam a ser gente com a II Guerra Mundial, enquanto a Europa e os países do Pacífico levaram mais de uma década para ressurgir das cinzas.
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