Edilson Rocha 10 de julho de 2011

(rochaedilson@yahoo.com.br)

Era o ano 2000. Não lembro o dia nem o mês. Estava no Mararu, em Santarém. Dias antes, Francisco Aparecido me dissera que sua mãe, D. Luzia, tinha enviado um cachorrinho poodle para mim. Eu não disse que sim nem que não. Nunca tivera um animalzinho de estimação, nem mesmo um passarinho, que sempre esses bichinhos voadores exerceram uma enorme fascinação em mim, desde a infância. Talvez porque os primeiros sons que ouvi na minha vida, em abundância e por um bom tempo, foram os trinados de incontáveis passarinhos, nas primeiras manhãs de minha existência. Mas aceitei o presente de D. Luzia. Eu já encontrara com ela em diversas ocasiões e ficamos amigos. Mas não tinha percebido que tinha atração pelos cachorrinhos poodles que sujavam a casa, em Belém. D. Luzia percebeu alguma coisa e achou que um cachorrinho seria um bom presente para mim.

O cachorrinho que ela destinou para mim era um filhotinho branco, que me foi enviado depois de quatro meses de vida, esperando pelo seu futuro dono, em Belém. Ele chegou pela TAM, num daqueles vôos matutinos que vinham de Belém para Santarém. Fui buscá-lo e, quando o retirei da caixinha, ele se apaixonou imediatamente por mim, numa amizade que duraria dez anos. Não pensei que isso poderia acontecer comigo, pois o cãozinho também me conquistou e não saiu mais do meu pé. Não queria dormir a não ser no meu quarto, ou pelo menos do lado de fora da minha porta.

Nossa casa em Mararu tinha um bonito gramado, razoavelmente bem cuidado, sobre o qual o cachorrinho gostava de correr feito um coelho, dando saltos por sobre a grama. A primeira coisa que precisava decidir era que nome dar ao cachorro. Não gosto destes nomes “bestas” que as pessoas costumam dar aos animais, especialmente a gatos e cães, tais como Mozart, Reynold, Beethoven, etc. Acho que cachorro tem que ter nome curto e fácil de memorizar. Isso vale para a gente, mas principalmente para o próprio animal. Resolvi chamá-lo de “Popó”, talvez porque naquela época estava em alta o lutador baiano conhecido por este apelido. E pegou, porque meu pequeno amiguinho imediatamente aceitou este nome. E Popó entrou na minha vida para se retirar somente no final da sua. Foi uma amizade que nunca se quebrou, apesar de que em alguns momentos eu desejasse que ele desaparecesse de minha presença. Às vezes achava demais aquele apego, mas me irritava sobretudo quando ele demarcava todos os pontos da casa ou do quintal com sua urina fedorenta. Os excrementos, nem tanto, porque são sequinhos e não tão fedorentos. Mas estes inconvenientes eram relativizados e logo esquecidos por causa da fidelidade e da alegria com que sempre vinha ao meu encontro. Mas a amizade era pegajosa demais e o sujeitinho não saía do meu pé.

No primeiro ano de vida, deu muito trabalho, especialmente por causa das doenças. Era como uma criança e se comportava como tal, com todos os aspectos afetivos destas situações. Então, levar ao médico, comprar remédios, aplicá-los com todo o cuidado necessário. E aí a relação se estreitava cada vez mais, num apego recíproco que só aumentava. Não faltaram críticas, mas eu não era o primeiro a adotar um cachorrinho de estimação e até levá-lo de vez em quando para algum evento. Superei os preconceitos e assumi a relação. Convenci-me de que, naquelas alturas da minha vida, entrando na década dos quarenta, ter um bichinho assim faria muito bem, principalmente ao meu coração. Confesso que meu coração tinha um motivo a mais para palpitar de prazer. Olhar para este animalzinho fofo e amá-lo, cuidar dele, preocupar-me com ele…. Difícil explicar. Parece bobagem ou infantilidade. Ou seja lá o que se queira chamar a este tipo de comportamento.

Naquele tempo eu andava num Fiat uno 1997. Diziam os meus companheiros que quando o carro estava chegando, a uma certa distância, Popó reconhecia o ruído. Sabia que eu estava chegando. Começava a agitação e a alegria até o carro adentrar pelo portão do nosso grande quintal. Ele esperava eu sair do carro para receber um carinho, um abraço. Ele ficava no céu de tão feliz, abanando o toquinho de rabo feito um ventilador. Que felicidade! E isso me fazia bem também, sem dúvida, por que não?

Quando mudei para Manaus, em fevereiro de 2002, não foi possível deixar o Popó. Talvez tenha sido influência de outras pessoas que insistiram que eu deveria trazê-lo comigo, que ele sofreria e poderia até morrer de saudades . Acreditei e concordei em trazê-lo. Como a minha viagem seria de barco e não poderia trazê-lo junto, alguém cuidou de despachá-lo pela TAM, de novo, para Manaus. Vocês não podem imaginar a felicidade do Popó quando o busquei no aeroporto de Manaus. Impossível esquecer aquele momento.

Em Manaus, ele foi aceito sem problemas, pelo menos sem nenhuma aparente resistência dos outros inquilinos da casa. Pelo contrário, ele se tornou um membro querido da comunidade, aceito por todos sem problemas. De uns conquistou mais que de outros a amizade. Uns pareciam indiferentes, mas outros se divertiam com ele. Lembro-me do Raimundo incitando-o a caçar ratos embaixo de um canteiro suspenso ao lado do jardim. Raimundo se divertia muito com a brincadeira.

Popó se tornou o mascote da casa. Atento aos ruídos no portão, sempre dava sinal quando aparecia alguém no portão da frente da casa. Latia até alguém ir atender e parava imediatamente de latir quando a visita era introduzida na casa. Funcionava como campainha, muitas vezes.

Gostava de estar junto ao grupo, em todas as ocasiões. Sempre deitadinho em algum canto, bem comportado, se ninguém brincasse com ele. Muito discreto, mas sempre em busca de atenção e carinho quando percebia o momento exato para isso. Se alguém, qualquer pessoa o pegasse no colo, ele ficava felicíssimo e tinha duas reações típicas destes momentos felizes: o toco de rabo a mil por hora e os bocejos. Abria seguidamente a boquinha.

Há pouco mais de um ano, começou-se a perceber manchas esbranquiçadas nos dois olhinhos, antes sempre tão atentos e vivazes. Era a catarata, que o foi cegando progressivamente e deixando-o limitado. Já procurava a gente mais pelo faro do que pelo olhar. Uma outra praga que o torturou constantemente em Manaus foi a infestação por carrapatos. Talvez foram estes os principais responsáveis pelas mazelas dos últimos tempos de sua vida.

Em abril deste ano, para tentar livrá-lo dos carrapatos, alguém deu um banho nele com um veneno que quase o matou. Depois disso, ficou sempre doente. Por ocasião de uma viagem que fiz em inícios de maio, a situação dele ficou tão ruim que alguns chegaram a cogitar matá-lo com uma injeção letal. Ao chegar em casa fiquei penalizado com o sofrimento dele e o levei ao veterinário. Estava muito sujo, infestado de carrapatos, sem apetite, bastante debilitado. O médico mandou aplicar um soro e depois colocou-lhe um carrapaticida no dorso. Prescreveu alguns remédios para a doença causada pelos carrapatos. Passou também um fortificante à base de ferro para combater a anemia profunda em que ele estava. Dei os remédios e, quando ele melhorou um pouco, dei um bom banho, higienizei o bichinho, deixando-o branquinho como nos bons tempos. Ele se reanimou e readquiriu a motivação para viver. Mas foi uma melhora passageira. Em junho começou a decair de novo. Andava tonto, trôpego, vacilando de um lado para o outro. Parece que os olhos se tornaram mais opacos. Eu sofri também junto com ele. Não sei definir este sentimento que me tomava quando contemplava a situação do bichinho.

Fui a Salvador por oito dias, no início de julho e, ao retornar, ele ainda fez festa ao me encontrar. Dei outro banho nele, mas deu para perceber que ele estava sofrendo muito. Não estava mais se alimentando. Bebia pouca água e parecia estar com incontinência urinária, pois urinava enquanto estava deitado, em abundância, porque deixava uma poça enorme. Coisa anormal.

Na noite de domingo, dia 11 de julho, tentei dar alguma coisa para ele comer. Um pouco de iogurte, com uma seringa. Passados cinco minutos, ele teve alguns espasmos e vomitou bastante. Ficou desanimado, estendido no chão, sobre parte do próprio vômito fedido. Retirei-o e o coloquei no pátio externo, para poder limpar a cozinha. Pensei que o fato de vomitar poderia fazer bem para ele. Na manhã seguinte eu o levaria ao veterinário de novo para ver se ainda se poderia fazer alguma coisa por ele. No dia 12, ele amanheceu dentro de casa e caminhando. Até parecia melhor. Mas desapareceu na hora em que tomávamos o café. Tinha saído para o jardim, ao lado da cozinha. Quando dei pela falta dele, comecei a procurá-lo, mas não o encontrei nem dentro de casa, nem no quintal. Denys foi quem me chamou para mostrar que ele estava já morto, entre os vasos de plantas. Parou de sofrer, pensei e disse, não sem alguma comoção.

Coloquei-o dentro de um saco plástico com a intenção de levá-lo para enterrar no quintal da outra casa. Foi quando chegou Duván com um caminhão-baú para levar as plantas dele para a outra casa. Pedi ao Duván que levasse o corpinho do Popó para enterrar no quintal de lá.

As pessoas ficaram esperando uma reação de sofrimento de minha parte. Não demonstrei nenhuma. Agora, enquanto escrevo estas linhas sobre a história do Popó, cruzada com a minha nestes dez anos, sinto uma coisa estranha. Como é que poderia ficar indiferente? O Popó desapareceu e deixou um vazio. Não são só as pessoas queridas que deixam esta sensação quando partem. Agora posso dizer isso porque é isso que estou sentindo. Estou sentindo falta dele, sim, e estou sofrendo. Quem poderia imaginar, por causa de um cachorrinho!
Manaus, 13/07/2010

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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