Pode-se escrever sobre quase tudo: o papel, nos limites impostos por sua geografia, não tem preconceitos. Aceita as idéias com a amabilidade das plantas bem podadas e a delicadeza dos educados e desinteressados. Abriga-as, sem juízo de valor, mesmo quanto àquelas que corariam a face do mais libertino dos homens. O papel é, em certo sentido, o maior incentivador da propagação dos conceitos, das opiniões relevantes para os mais diversos aspectos da existência.
          Da perspectiva fria da folha impressa, assim como da de Hamlet – em quem, curiosamente, não havia frialdade – em resposta a Polonius, tudo isto que tu lês a nada se resume senão a palavras, palavras e mais palavras. Se olharmos a questão com maior profundidade, nada obstante, podemos mesmo afirmar que o que se lê não é o que está escrito. O que se lê é o que sai mesmo das sílabas, palavras e frases e jaz em algum lugar esquisito, misterioso, que bem não sabemos onde.
          Eis por que sempre pensei que o texto pudesse ser algo maior do que as frases que ele contém. Algo que, na esteira do que apresenta o homem, trouxesse em si certo espírito ou, pelo menos, um sopro, uma chama, uma faísca que fosse. Sempre tive para mim que o texto poderia ferir ou curar, intensificar a vida ou mesmo matar. O texto nunca me foi um ser inanimado, mas vivo, pulsante e devorador.
          Mesmo convencido do que terrivelmente podiam as palavras quando reunidas, nunca consegui exatamente dar conta de tais possibilidades, dos sentidos que elas poderiam ter. Afinal, pensar que palavras são mais do que simples palavras não encontra eco nas rodas dos mais sensatos e equilibrados e, por isso, qualquer pensamento nesses termos é logo aprisionado pelas perigosas, porém necessárias, peneiras do socialmente aceitável.
          Libertei-me das amarras do socialmente aceitável em relação às conversas sobre sentidos outros dos textos, quando notei, quase por acaso e ainda jovem, que o texto também existe em outros lugares que não as palavras. Que descoberta! Comecei a notar que nos olhares, sorrisos, modos de caminhar, ou seja, nos gestos em geral, há por vezes mais texto de que em toda uma enciclopédia. Imediatamente, veio-me um novo prazer da leitura, só mais apurado, pois podia entender com maior aprofundamento tanto o que já conseguia ler quanto alguns dos motivos do meu novo analfabetismo.
          Conforme disse, há certos gestos que mais dizem do que um longo livro, pois o que expõem não se coloca em palavras, mas diretamente em texto. Eis que se me foram pela vida apresentados os textos sem palavras. Faltava­me, por certo, o aprendizado pela experiência, pela vivência. Todas as pessoas ao meu redor passaram a ser textos. Olhava-as e, mentalmente, já podia sentir o prazer intelectual de decifrar uma mensagem escondida, criptografada, que não se queria mostrar.
          Assim, eu fui firme e decidido da teoria ao exame prático. Tudo me era motivo de leitura e interpretação, de forma que havia textos gestuais melhores e outros piores, da mesma forma como ocorre com os livros. Um desses textos gestuais dos quais falo agora me pareceu realmente fantástico, mesmo inquietador. Certa feita, fui almoçar em um desses restaurantes da nossa cidade. Lá, pude reparar em um balé quase indescritível. Era feito, unicamente, pelas mãos de enamorados sobre a mesa. De um lado, as mãos da moça, lindas, inda que reais; do outro, as do rapaz, trêmulas, inda que seguras.
          Vejam – e não apenas leiam – a coreografia: as mãos dela projetavam­se sobre a toalha branca e sobre uns e outros respingos do molho de grãos, tentando fazer com que seus movimentos parecessem e não parecessem casuais: eram, pois, movimentos que repousavam entre o indeciso e o dissimulado, entre o volitivo e despretensioso.
          Quando uma delas, a mão direita, ficou estendida sobre a mesa, o ainda-quase-namorado, do outro lado, notou aquilo. Haveria de tocá-la. Mas, por essas razões estranhas, a mão dele não se movia e a dela continuava lá. Ele, então, tentou novamente colocar a mão perto dos longos dedos da moça, que só não eram mais longos do que os dele, que bem poderia ter escrito o poema Canteiros, de Cecília Meireles.
          Assim, ainda no intuito do delicado toque entre as mãos, tentou, tentou, e, pelo que pude notar, quando considerou a frase “é agora!”, ou seja, quando me pareceu ser o momento em que o contato entre os dois se consumaria, ela resolveu pegar o guardanapo, que repousava sabre as coxas, para limpar um sujinho no canto da boca.
          O ainda-quase-namorado considerou a sua timidez. Pelo semblante, detestou-a. Por certo, consolou-se porque havia para apreciar, pelo menos, aquele olhar da dona das mãos maravilhosas, limpando a boca vermelha do batom, com os dedos todos visíveis e, mesmo sem saber, arrependidos pelo movimento que não quis fazer, mas que (in)voluntariamente fizera. Fato é que, quando desistiu de fazê-lo, já se passara um segundo e era tarde demais para voltar de imediato a repousar a mão sobre a mesa. Sim, um segundo pode assemelhar-se a um milhão deles; sim, o instante pode irmanar-se da eternidade.
          O interessante é que o momento passou e aquilo que se viu sobre a toalha da mesa de canto do restaurante em questão não mais se repetiu. O texto não mais seria lido. Os livros gestuais, curiosamente, não são copiáveis e se esgotam no momento em que são escritos. Nem mesmo as câmeras filmadoras os reproduzem com a necessária fidelidade, tornando-se falsas, senão paupérrimas, representações das possibilidades de cada momento.
          Voltei a atenção ao casal de quase-namorados. Eles retomaram a conversar e não mais pude ver nada no movimento daquelas mãos que não se esgotasse no óbvio, no frívolo e no ordinário. A sensação que tive é que ambos o moço e a moça haviam resolvido deixar de ser grandes e ímpares. Escolheram a volta ao fútil, que é seguro, e engrenaram as conversas simples até o momento da sobremesa, não menos comum.
          Confesso que cheguei a pensar que, às vezes, quando algo quer acontecer, os protagonistas não passam de meros fantoches até que o momento passe e todos voltem a viver no mundo como as palavras vivem no papel: com dificuldade para dizer o que realmente importa. Neste momento, o garçom se aproximou, tirando-me do estado reflexivo, e perguntou-me: “o de sempre?”. Respondi-lhe que não e, olhando o cardápio, pedi o que me pareceu ser de todos os pratos dali o mais banal: foi a minha singela homenagem à destruição de um amor, que havia visto no ato – e lido no texto – protagonizado por aquelas mãos sobre a toalha branca.
* Tassos Lycurgo é professor da UFRN
Obs: Imagem retirada do texto do autor em seu livro Variações do Indizível – Ensaios de Risco : ilustração de Alexandrina Viana criada especialmente para o ensaio.
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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