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     A LADEIRA DA MISERICÓRDIA
      Participação na antologia Sonhos de Carnaval, 2008
          Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.
          Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas íris* verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.
          Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.
          Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.
          Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.
          Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.
          Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.
          Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.
          Eugênia.
          Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.
          Só mais uma vez.
          Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.
          Havia de ser a última chance.
          Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

………

QUANDO A CHUVA CHEGAR**
Texto extraído de Diálogos, 2010
                                                                         Pois onde estiver o teu tesouro,
                                                                       aí também estará o teu coração.
                                                                                                    Mateus 6, 21
          Há muito tempo não venho ao Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. Nele, ganhei, perdi amores, ilusões e desafetos. Passeio cedinho entre foliões ansiosos no Forte das Cinco Pontas aguardando a saída do bloco; acontecerá em poucos minutos.
          Palhaços e colombinas, piratas, damas da corte, todos querem ser o outro por um dia; reconheço um sonho antigo meu: o que seria se eu não tivesse nascido neste corpo?
          Talvez fosse aquele homem careca, barrigudo; fantasiado de Super-Homem, esconde uma vida de servidor público, todos os dias a mesma rotina, a mulher o abandonou em busca de aventuras, os filhos adultos o visitam no Dia dos Pais.
          Ou quem sabe seria aquela moça baixinha? Fantasia de havaiana, tudo são flores e coloridas. Passou no vestibular de Letras, mas não colocou um band-aid rosa na sobrancelha porque o namorado não iria gostar. Sonha com uma casinha branca de janelas azuis, cinco filhos e um longo felizes para sempre.
          Mas me agrado com o Aladim. Por mim passa, uma caipirosca na mão direita, a esquerda levantada cantando Voltei Recife. De algum porto distante navegou e navegou porque era preciso; ganhou, perdeu amores, ilusões e desafetos.
          No Marco Zero a chuva se aproxima misturada com o oceano azulado. As ondas crespas verde-musgo se dissolvem na bruma das nuvens cinzas, percebo prismas de luz tombarem na escuridão do mar profundo.
         O Aladim se afasta atrás do Galo. Fico muda, cansada e sem forças. Espero. Quem sabe quando a chuva chegar eu me reconheço?

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* ERRATA: Na antologia Sonhos de Carnaval está “pupilas verdes”.

** Diante da tela Rainstorm off the Coast at Brighton, John Constable

Obs: Imagem enviada pela autora: Rainstorm off the Coast at Brighton, John Constable

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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