Entre Chelsea e Notting Hill

   Um Conto em Tempo de Meditação

                               

              

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O trabalho de investigação científica é estimulante e, quando sorvido com resultados animadores, vicia, a pontos de levar o investigador a estágios de dependência, pela simples razão de que a ditadura do intelecto reclama por mais. De facto, a experiência que surtiu efeito impõe de forma coerciva que outra mais complicada se venha a realizar, que o tratamento matemático dos resultados se torne mais elaborado, que se dê o salto na utilização de técnicas ainda mais sofisticadas à procura de uma ínfima particularidade que, por aparentar ser mesquinha, tem passado despercebida a quem já se cruzou com ela e não a reconheceu. A ciência sabe, que é nessas ínfimas minudências que, muitas vezes, se encontra escondido o degrau que impede o progresso. Quanto mais se sabe, maior é a ânsia de saber.
Arnaldo andava satisfeito com os seus progressos sobre a aplicação de sistemas de informação geográfica ao ordenamento do território e ao desenvolvimento sustentado, com recurso a imagens de satélite e Helena começava a sentir o gosto de perseguir a identificação de uma proteína que, supostamente, facilita a ocorrência do cancro do estômago, ligado a lesões causadas pela bactéria Helicobacter pylori. Arnaldo defendia que andava a fazer qualquer coisa de novo, ao nível do conhecimento do universo português, mas que isso não era investigação e Lena retorquia que ele não sabia distinguir entre investigação fundamental e investigação aplicada, argumento a que ele respondeu, num murmúrio atrevido e confidencial.

      – Inalar o perfume da mulher que se gosta, sentir por debaixo da roupa a suavidade da pele e o pulsar do corpo que se deseja é um acto de investigação fundamental ou aplicada?

       – É investigação fundamental, se for por motivo de amor e investigação aplicada se for questão de sexo – exclamou Lena num tom histriónico, enquanto tapava a boca para agasalhar a gargalhada que se havia desprendido do canto mais quente da alma.
O jantar foi emotivo. Falou-se de tudo e de nada, até que ela confessou que perdera o pai na adolescência, facto pelo que qual teve uma vida difícil, sobrevivendo graças à família da Didi, que apoiou a mãe no começo da vida de viúva. «Repara nas coincidências, Arnaldo! A Didi é mais velha do que eu três anos, formou-se em Filosofia, foi professora do secundário e nunca me ligou. Casou-se com um masmarro que lhe deu má vida, divorciou-se e, agora, passa o tempo a flautear-se sem olhar para trás. O acaso colocou-nos frente a frente no aeroporto de Lisboa, da última vez que fui a Portugal. Perguntou-me o que andava a fazer, trocámos contactos, disse-me que ia à Grécia e que brevemente me escreveria, pois tinha assuntos a resolver no Reino Unido. Há dias, recebi um e-mail a confidenciar-me que viria a Londres na próxima semana e quer a minha ajuda para bater as lojas de Notting Hill e calcorrear a feira de Portobello Road. Está interessada em louça antiga: Cantão, Família Rosa e Companhia das Índias e agora estou frita. Apetece-me dar-lhe com os pés, mas receio estar a ser ingrata».

       – Não sei por onde começar… – disse Arnaldo um tanto absorto. – Qual é o problema de ires com a Didi bater as lojas de Notting Hill, a um sábado de manhã? Se as tuas experiências científicas estiverem a correr bem, a proteína não vai fugir num fim-de-semana.
       – É verdade! Mas não quero perder tempo. Achas que sou egoísta?
       – Quem sabe se eu próprio não vivo o efeito dilemático de ser ou não egoísta? Mas se quiseres, até vos posso ajudar. Sempre gostei de antiguidades.
       – Achas que devo ficar tranquila se a Didi insistir? – Perguntou Helena com ar agastado.
       – Acho que sim! – Retorquiu ele com confiança. – A Didi não vai instalar-se no teu quarto! Quem passa a vida a viajar de avião, dorme em hotéis de cinco estrelas!

Quando saíram do restaurante, vaguearam de braço dado por Chelsea, a olhar montras, cafés e pubs em direcção a Redcliffe Gardens. O ar estava acerado e o céu exibia uma Lua em quarto crescente a espreitar entre nuvens. A aragem acicatava-lhes o aconchego do quente e ela encaixou a mão na dele e enfiou-as no bolso do casaco mas, pouco tempo depois, ele preferiu passar-lhe o braço pelos ombros e apertá-la contra si, enquanto ela ia deixando encurtar o espaço desconhecido. Ambos se sentiam mais agradados com o calor do íntimo do que com o delírio do bulício da noite e começaram a caminhar arqueados.

       – Há por aqui e em Knightsbridge uma ou outra casa de fado. Num sábado, não queres vir jantar à luz da vela?
       – Tu gostas de fado? – Inquiriu Helena com espanto.
       – Gosto! Uma vez estive numa destas casas e alguém foi dizer ao dono que eu sabia dedilhar e obrigaram-me a tocar.
       – E saíste-te bem? – Perguntou ela com um sorriso espantado de curiosidade.
       – Acho que sim! Bateram palmas e gritaram bis!
       – A Lua é afirmativamente mentirosa e tu? Não estás a mangar comigo?
       – Tenho o defeito de não saber mentir! E mais te digo…estou desejoso de fazer tolices… – segredou-lhe junto ao lóbulo da orelha, como se o cicio fosse uma obscenidade.

Ela riu-se, ele apertou-a mais, e logo que a próxima esquina apareceu, ambos se retiraram para a transversal e começaram a olhar-se de frente, procurando ler nas ânsias, o inevitável veredicto. Há semanas que Arnaldo lutava contra isto, tentando interiorizar que uma ligação amorosa com Lena seria inevitavelmente descontrolada e redundaria, a médio prazo, em mais um fracasso da sua vida, e Helena ouvia uma voz eversiva a lembrar-lhe que jurara só voltar a ter ligações amorosas depois do doutoramento. Mas o impulso magnético do desejo venceu a inércia da sensatez. Ele estreitou-a nos braços e beijou-a até que, subitamente, ela prendeu os braços em torno do pescoço dele e deu por si a rodopiar como um carrossel, com as solas dos sapatos viradas para cima, impulsionada pelas mãos que lhe cingiam a cintura. As pessoas passavam, disfarçando o olhar e sorrindo, até que o beijo serenou, dando lugar à realidade. E sem mais delongas, enfiaram-se num táxi e gritaram: Redcliffe Gardens, please!
Quando entraram no prédio, estava escuro e só os corações falavam. E nada mais se ouviu do que notas abafadas tiradas a meio tom, que escapavam sob a forma de gemidos surdinados, num dueto onde os prazeres do homem e da mulher se fundiam na harmonia da intra-comunicação do corpo e do espírito até que, subitamente, ambos gritaram, ela num tom mais agudo, ele num tom mais grave, dando lugar ao silêncio que estendeu o braço ao breu. No ar, só a fragrância do amor pairava.
A procura da verdade suprema é de facto uma corrida sem fim para os cientistas, uma vez que a verdade adora ocultar-se, usando efeitos miméticos, para jogar às escondidas disfarçada de verdades aparentes, de pontas de verdade, de verdades tardias, da última verdade e de muitas mentiras, para ensinar aos novos e crédulos, o sabor desse contentamento insatisfeito que afecta todos aqueles que enveredam pela senda da investigação. Duas semanas depois apareceu a Didi, que não era mais do que Clotilde, a ex-mulher de Arnaldo, que desconhecia que ela alguma vez tivesse deleite por antiguidades e, muito em especial, por louça de Cantão, Mandarim Velho, Família Rosa, Companhia das Índias e outras, coisas mesquinhas a que sempre deu o nome genérico de “cacos”. O que é que teria motivado tão drástica metamorfose?
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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