Conto em Tempo de Natal

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       Quando o espírito está saciado, é fácil negligenciar a hora do almoço em troco de uma refeição leve. As experiências absorviam cada vez mais a vida de Irene que decidiu enganar o estômago na companhia dos equipamentos. Anotou os resultados das últimas medições, abriu o embrulho da merenda, sentou-se à secretária e começou a comer uma sandes, enquanto passava os olhos pela revista “Environmental Science” Abriu uma garrafa de sumo e foi bebericando à medida que se embrenhava na leitura. Era uma peça importante sobre os malefícios de alguns efluentes industriais. Anotou pormenores, para digerir em ocasião mais oportuna, e voltou à bancada. De regresso, os colegas foram-se metendo com ela e Irene foi retribuindo com ditos jogralescos até que começou a sentir falta de ar. O tempo não estava abafado, nem o laboratório estava super-aquecido. Abriu uma janela, mas não melhorou. Conjuntamente com a falta de ar, sentiu dores de cabeça, depois tonturas e por fim náuseas. Quando se apercebeu do que se estava a passar, correu para o colega mais próximo e disse: «sinto-me envenenada…» e caiu.

O bulício era grande, não se sabendo como apareceu uma maca, um médico e dois enfermeiros que começaram a seguir o percurso da tensão arterial que baixava drasticamente. O médico cheirou a boca de Irene que exalava um hálito a amêndoa amarga, além de sofrer de dificuldades respiratórias que trepavam o quelho que dá acesso à morte. A dispneia aumentava à medida que o complexo “cianeto-citocromo oxidase” inibia a utilização do oxigénio pelas células. Fluidas recordações da vida corriam-lhe pela mente sob a forma de diaporama, entre as quais apareciam figuras esbatidas a enviarem beijos de despedida. O sussurro das vozes distanciava-se e a angústia passeava no rosto dos presentes, desesperada com a incapacidade humana perante a morte, que aguardava o momento de entrar.

– Não há tempo para a levar ao hospital. Precisamos de lhe dar a inalar nitrito de amilo e elevar-lhe a tensão arterial para a casa dos oito. A máxima está muito baixa.
– Dá-lhe outra pérola de nitrito e tu prepara tiossulfato de sódio. Ela está a gelar.
– A tensão arterial continua a cair – disse o enfermeiro em desespero.
– Ou a safamos agora ou nunca – retorquiu o médico, administrando o tiossulfato por via endovenosa.
– Vamos arriscar nitrito de amilo de minuto e meio em minuto e meio; tu prepara-me mais um bólus de tiossulfato e tu não deixes de me ir avisando da evolução da tensão arterial – gritou o médico de forma hirsuta, como se o mundo estivesse a desmoronar-se.
– A queda da pressão foi contida… – bradou o enfermeiro ao olhar a inversão do comportamento da coluna de mercúrio.
– Quando estiver perto de oito, vamos substituir o nitrito de amilo por nitrito de sódio. Prepara-me também norepinefrina para tentar manter a máxima acima do mínimo exigido.
– Acha que se salva doutor?
– Ainda é cedo para se saber; vai precisar de entrar nos “Cuidados Intensivos” para que não haja queda no ciclo de reabilitação. O tratamento exige medidas de suporte e um controlo apertado. É indispensável restaurar a função enzimática. Se aguentar quatro a cinco horas é provável que recupere, mas podem ocorrer lesões cerebrais irreversíveis.

Quando voltou a si, Irene encontrava-se rodeada de máquinas, enleada por tubos que lhe entravam pelo nariz, pela boca e pelas veias. Não tinha a mínima noção do que se passara e, confusa, não conseguia articular um pensamento. Vivia um estado hibernante envolto numa debilidade quase total. O silêncio era de morte, mas devia estar viva, porque começou a ouvir o piar, intermitente, que vinha de uma máquina que não tinha aspecto virtual. Estava envolta em penumbra, entalada entre cortinados de cor celestial, mas no ar persistia uma dócil nebulosidade à mistura com sombras e matizes de pinturas sacras evocando o que está para além do Olimpo. De qualquer modo, não sabia se eram imagens das recordações da vida ou se, por outro lado, não estaria a dar os primeiros passos da ressurreição, pois a morte deve ser algo que só se dá conta com os sentidos da alma. Uma coisa parecia certa. Se estava viva, a vida troçara de si, com uma dose de ironia que roçava o desprezo e, pela primeira vez, fora atirada para o domínio da transcendência, embora sem dar um passo consciente para isso. Era como se algo de transitório, nas relações com o mundo material, tivesse sido posto em causa e, presumivelmente, nunca mais deixaria de pensar nessa inquietante tranquilidade. De repente, o fundo celestial em frente da cama agitou-se e, uma figura feminina, de bata branca, apareceu e verificou o estado da tubagem, como se fosse um canalizador sofisticado, de mãos e pés de fada. Analisou os gráficos e os valores registados pelas máquinas, abriu-lhe os olhos, perscrutou-lhe o interior, deu-lhe umas palmadinhas na face e disse-lhe delicadamente: «então Irene, como vai isso? Não quer falar connosco? É preciso acordar! Temos de pentear esses cabelos bonitos» mas não obteve resposta. Ajustou o fluxo do soro, olhou em redor e foi-se embora em passos de cetim, deixando, atrás de si, um traço do profissionalismo próprio do mundo civilizado. O sono pesado regressou e ofuscou, de novo, a realidade momentânea, relançando a paciente no espaço, facto que lhe devolveu a tranquilidade e o prazer inerente ao mistério da sustentabilidade da leveza do ser.

Nuno encontrava-se no Bahrain, numa empreitada portuária. Estranhava a falta de notícias e sentia-se intranquilo. Detestava escrever à máquina ou em computador acerca de assuntos de intimidade. A letra, dizem os grafólogos, tem muito daquilo que somos e, segundo o seu pensar, o sabor de escrever uma carta, por amizade ou por amor, não podia ser satisfeito num computador. Afigurava-se-lhe um acto árido, em trânsito pelo deserto dos afectos. Por isso, tinha uma caneta de tinta permanente, cujo aparo havia adquirido o indispensável ajustamento à inclinação e força a que era sujeito e conhecia a sequência predilecta das palavras adequadas a ocasiões sublimes ou a momentos amargos. Era um aparo que continha, em si, o dom da escrita, como se fosse uma entidade viva capaz de adivinhar o resto da frase pela força exercida no bico, pela tremura do polegar, pela inclinação da caneta e por outros atributos que guardava a sete chaves. Em desespero, Nuno recorreu a telefonemas e e-mails, mas continuou a não obter resposta. Foi até ao bar do estaleiro, onde alguns trabalhadores queimavam horas de descanso à procura de um ouvinte e, na falta de ajuda humana, embalados por cerveja e whisky, acabavam por se curvar perante o próprio balcão, como se este fosse um muro de lamentações. Depois de muito pensar, Nuno tomou a decisão de antecipar a licença por férias de Natal.

Quando entrou no hospital, ia preparado para o pior. Estava gelado, não só pelas condições climatéricas, mas sobretudo pelas informações obtidas na universidade. Londres estava vestida de branco, os ponteiros do Big Ben haviam-se atormentado com o excesso de neve, mas as ruas e montras apareciam enfeitadas em honra da esperança natalícia. A esperança era para Nuno qualquer coisa inerme e inerte empoleirada nas asas da alma, quando esta esvoaça desorientada depois de se deixar encurralar pelos aneurismas dos becos vida. Sempre foi materialista e, por força desta singularidade específica, nunca acreditou que a esperança pudesse resolver o que quer que fosse relativamente ao futuro do ser humano, a não ser no domínio de uma abordagem primária e emotiva.

Ia trémulo e incrédulo, quando se dirigiu para o sector de reanimação, acompanhado por um médico que lhe pediu para chegar junto de Irene como se nada tivesse acontecido e lhe falasse exactamente como se estivesse a tentar acordá-la num dia normal. Quando o médico arredou as cortinas, Irene permanecia deitada de olhos semicerrados num estado aparentemente vegetativo. Nuno debruçou-se sobre o leito, tocou-lhe ao de leve na face, penteou-lhe os cabelos com os dedos feitos escova, deu-lhe um beijo prolongado na face e segredou-lhe ao ouvido, no tom plácido e carente que ela tanto adorava: «Irene! Temos de ir às compras de Natal. Lembras-te da lista que preparámos? Fizeste-me jurar que íamos ao Harrods e a Portobello Road. Vem aí os teus pais e ainda não aprontámos nada. Acorda amor…tá». O rosto de Irene tomou uma expressão de admiração, os olhos abriram-se e lucilaram, enquanto os lábios sorridentes pronunciaram as primeiras palavras após o acidente:

– Nuno?! Que bom voltar a ver-te…

Nuno sentou-se na borda da cama e ambos apertaram as mãos em honra da felicidade, enquanto o médico se retirou com discrição, inundado de complacência por ter ganho mais uma batalha a favor da vida.                                                             

          

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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