PARTE II – TRAÇOS TEOLÓGICOS EM TEXTOS POÉTICOS

“POR UM DIA DE GRAÇA” – LUIZ CARLOS DA VILA

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Iniciamos com a análise do samba “Por um Dia de Graça”, da autoria de Luiz Carlos Baptista (1949-2008), compositor brasileiro, nascido no bairro carioca de Ramos. Recebeu o nome artístico “da Vila”, a partir de 1977, quando entra para a ala dos compositores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Luiz Carlos da Vila ficou conhecido como “Poeta do Samba”. Cantou-se “Por um Dia de Graça”, pelo Brasil inteiro, na campanha das “Diretas já”, e, com certeza, é uma composição que continua sendo lembrada e cantada. Esta canção, que pertence à Música Popular Brasileira possui força significativa, densidade poética e riqueza espiritual. Não é, pois, sem razão, que a encontremos, como também outras canções pertencentes à Música Popular Brasileira, na seleção dos hinos a serem cantados em circunstâncias especiais, no Ofício Divino das Comunidades .

Antes de começar, devemos dizer que a análise que faremos, da composição, na busca de nela encontrar “traços teológicos” ou a dimensão do sagrado, não será, em absoluto, uma crítica literária rigorosa. Estamos conscientes de estar diante de uma expressão artística, que trabalha com a linguagem verbal, uma das manifestações mais heterogêneas quando se fala em cultura ou sociedade.

Por um Dia de Graça

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça.
Poesias brindando esta manhã feliz,
o mal cortado na raiz
do jeito que o Mestre sonhava.

O não chorar, (ai o não chorar)
E o não sofrer se alastrando,
No céu da vida o amor vibrando,
A paz reinando em santa paz.

Em cada palmo de mão,
Cada palmo de chão,
Sementes de felicidade,
O fim de toda a opressão,
O cantar com emoção
Raiou a liberdade.

Chegou, chegou, ô, ô,
O áureo tempo da justiça,
Ao esplendor de preservar a natureza,
Respeito a todos os artistas.
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça,
O povo todo em louvação
Por este dia de graça.

O samba “Por um Dia de Graça”, como a maioria dos sambas, teve sua origem no mundo dos subúrbios, nasceu na Vila da Penha (Rio de Janeiro), onde morava Luiz Carlos da Vila. O samba, geralmente, não nasce no Centro, mas nas cercanias da cidade, na periferia. O samba nasce do povo, das classes oprimidas, das bases populares. O samba se origina nas camadas sofridas da sociedade que desejam e esperam dias melhores, que crêem raiará “um Dia de Graça”.

Fixemo-nos no título da composição: “Por um Dia de Graça”. Não conhecemos a vida de Luiz Carlos da Vila: não sabemos a que religião pertencia e se era um fiel praticante. Supomos, porém, que ele não conhecesse a passagem de Lc 4,14-21, que trata do início da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré, o programa de sua atividade, quando ele atualiza o texto de Is 61,1s, – “hoje, esta escritura se realizou para vós” (Lc 4,21) – ao proclamar “um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4,19). E temos certeza de que o compositor não tenha se inspirado neste texto bíblico, que imediatamente me veio à mente, para criar o seu samba.

Voltando à perícope por nós evocada: Lucas destaca a perspectiva do seu texto, falando da proclamação do “ano de graça” (Lc 4,19), ano jubilar a ser celebrado a cada cinquenta anos, no qual “cada um recuperará a sua propriedade” (Lv 25,13). Rompendo com toda injusta desigualdade, o “ano de graça” deveria contribuir para o estabelecimento permanente da fraternidade entre os membros do povo judeu e finalmente da comunhão com Deus.

Luiz Carlos da Vila fala de “um Dia de Graça”, que raiará, crê ele, sorrindo. E o que ele deseja, espera e que crê se concretizará, é assumido não só pela “massa sobrante” da nação brasileira, mas por todos os brasileiros que cantaram esta canção em um dos movimentos de maior participação popular da história do Brasil, a campanha das “Diretas já” (1983-1984). E não só aos brasileiros esta poesia contagia e segue transmitindo uma mensagem: seu alcance é universal e pode ser assumida por pessoas de qualquer parte do planeta.

É belo o modo metafórico como Luiz Carlos da Vila inicia a descrição do suspirado “Dia de Graça” que “seus olhos ainda hão de ver na luz do olhar do amanhecer”. A manhã que surge é presenteada por poesias e o mal é extirpado, desarraigado, como “o Mestre sonhava” e como Ele proclamara na sinagoga de Nazaré. À graça se contrapõe “o mal (des-graça) cortado na raiz”. É Jesus que encaminha a humanidade para uma situação de reconciliação e partilha, que tornam possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão. É o reinado de Deus, reino de vida, é o sentido último da história humana, cuja presença teve início com a atenção de Jesus pelos esquecidos da História.

E o autor continua desdobrando o sentido do mal (des-graça) que será banido: o chorar e o sofrer não se alastrarão (“Ele vai enxugar toda lágrima de seus olhos” Ap 21,4), pois no céu da vida, vibrará o amor, e a paz reinará. E seguem bem-aventuranças atualizadas, sinais messiânicos poeticamente descritos:

“Em cada palma da mão,
em cada palmo de chão,
sementes de felicidade,
o fim de toda a opressão,
o cantar com emoção
raiou a liberdade”.

“O fim de toda opressão, o cantar com emoção raiou a liberdade”. Sem ter muita consciência, Luiz Carlos da Vila inspira-se no sonho de Jesus, o Reino, que se realiza já na história, começando pelos últimos e sempre onde houver verdade, justiça e amor. O anseio do ser humano é ser feliz, é ser livre. “Raiou a liberdade”: exulta o compositor, retomando o verso do nosso hino da Independência. E não importa sabermos que esta liberdade decantada seja mais utópica que real.

Vale notar que, embora a canção exprima o anseio por uma situação ainda não concretizada, alguns verbos se encontram no tempo passado – raiou a liberdade, chegou o áureo tempo de justiça”- como se o sonho e o anelo já fossem realidade para todos. E da ciranda do “Dia de graça” são chamadas a participar não só as pessoas “de qualquer chão, de qualquer raça”, mas também a natureza. Há lugar para o cosmos, há sensibilidade ecológica, cuidado com a Terra, nossa Grande Mãe.

E retomamos toda a parte final:

“Chegou, chegou, ô, ô,
O áureo tempo de justiça,
Ao esplendor de preservar a natureza,
Respeito a todos os artistas.
A porta aberta ao irmão
De qual chão, de qualquer raça,
O povo todo em louvação
Por este dia de graça”.

A fraternidade, a irmandade, a ternura com a criação supõem justiça, brotam da justiça. Finalmente, todo o povo é chamado à louvação. As palavras, a poesia, os anelos, os sonhos cedem lugar ao canto de louvor. O autor parece terminar com uma atividade cultual, uma espécie de “cântico novo”, a proclamação da boa notícia da salvação “por este dia de graça”. O autor começa e termina semelhantemente à composição de uma infinidade de textos bíblicos, com uma inclusão: “por este dia de graça”.

Concluindo este breve comentário sobre “Por um Dia de Graça” fica-nos a certeza de que, mesmo sem ser teólogo nem querer discorrer explicitamente sobre a fé, Luiz Carlos da Vila tem algo a dizer sobre o tema do “sagrado” com esta sua composição, na qual se encontram mesclados o humano e o divino. Ousamos afirmar que “Por um dia de graça” contenha mesmo lampejos de Teologia da Libertação, pois esboça, canta e celebra o anelo, a esperança, a utopia da libertação.

Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.

A PARTE III será postada no próximo dia 23.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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