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Nesses últimos dias de outubro houve a festa de comemoração dos 325 anos da Irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho. A mídia noticiou os principais momentos do evento realizado na igreja do Carmo, por a igreja do Rosário estar em reforma.

Há um historiador que se preocupou com o desenvolvimento dessa irmandade no Brasil, mas, sobretudo, com a sua evolução, isto é, sua gênese na Europa, o desenvolvimento na África, e a vinda e expansão no Brasil.

Frei Francisco van der Poel, um franciscano europeu mas radicado no Brasil, escreveu uma “Cronologia da devoção de Nossa Senhora do Rosário entre os bantos nos séculos XV-XVII, na África,em Portugal e no Brasil”. Ele vem se dedicando a essa pesquisa há algum tempo. Em 1981 escreveu sobre o centenário da Irmandade de Nossa do Rosário dos Homens Pretos em Araçuai, Minas Gerais, sob o título “ O Rosário dos Homens Pretos” e que foi publicado pela imprensa mineira. Em 1989 esteve em Portugal para pesquisar pela quarta vez a história das Irmandades do Rosário dos Homens Pretos.

E nesse seu périplo, ele descobriu muitos valores, tais como:

– Muitos dos escravizados bantos vindos para o Brasil já eram cristãos na África. As Irmandades do Rosário existem no Congo, em Angola e Moçambique, desde o século XVII.

– Bem antes do famoso Chico Rei de Minas Gerais, houve outros reis negros que festejaram Nossa Senhora do Rosário no Brasil, em Portugal e na África. No Brasil já existia uma Irmandade para os escravos da Guiné, antes de 1552, segundo o historiador Frei Odulfo van der Vat.

– Encontrou em Lisboa a mais antiga Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, que já existia em 1498, também para os escravos da Guiné.

– Em 1610, o rei do Congo entrou numa Irmandade do Rosário fundada pelo dominicano Frei Lourenço, em Banza, capital do Reino do Congo.

Conforme o historiador, Portugal, a partir de 1415, empreende a conquista de Ceuta, no norte da África. Os Papas incentivaram essas incursões concedendo favores espirituais, a quem ajudasse os reis nessa guerra contra os mouros e outros infiéis. O objetivo era convertê-los ao cristianismo. O historiador Pe. Miguel de Oliveira diz sobre o assunto:”A obra portuguesa das conquistas e descobrimentos foi, em primeiro lugar, uma nova Cruzada religiosa.Assim a entenderam, desde cedo, os pontífices romanos. Martinho V, concedeu largas indulgências aos que auxiliassem o Rei D. João I a prosseguir a campanha na África e recomendou às autoridades eclesiásticas que pregassem a Cruzada, pois se tratava de dilatar a fé cristã( Ver a Bula “Sane Charissimus”,de 04/04/1418). Outros Papas foram renovando essas graças e indulgências , até que, desde 1591, se estabeleceu a concessão regular e periódica da Bula da Cruzada.

O produto desse empreendimento foi, inevitavelmente, a escravidão. Já se registra a primeira venda pública de escravos africanos, em Portugal, em torno de 1444, conforme escreve Gomes Eanes de Azurara, na sua “Crônica dos feitos de Guiné” (1453). Isso foi realizado na presença do Infante D. Henrique, em Lagos, no Algarve, que muito impulsionou as expedições africanas com a sua célebre Escola de Sagres.

Em 1446 os portugueses chegam a Guiné. É de fundamental importância o estudo da história do cristianismo na Guiné, para se entender a origem da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Em Lisboa, a primeira Irmandade do Rosário integrada por escravos, já é encontrada no final do século XV. Frei der Poel diz que há um alvará de 14 de Julho de 1496, quatro anos antes da vinda dos portugueses ao Brasil, que registra esse momento. Trata-se de um documento dado à dita confraria, que “se reunia no Convento de S. Domingos de Lisboa, para dar círios e recolher as esmolas nas caravelas que vão à Mina e aos rios da Guiné”.

A Bahia é detentora de grandes tradições religiosas. As Irmandades antigas são os receptáculos e as testemunhas dessa história. O Rosário dos Pretos do Pelourinho, festejando seus 325 anos, representa um lugar de resistência e de encontro entre essas expressões que vêm dialogando como dupla pertença. Além de manter vivas expressões como o bacalhau com toucinho, servido no dia da festa, traz para os nossos dias, momentos, como a Revolta dos Malês, que parecem distantes ( 1835 ), mas reaviva essa consciência das origens e da identidade negra no Brasil.

Sebastião Heber.Prof. adjunto de Antropologia da Uneb, da Cairu, da Faculdade 2 de Julho. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da BA e da Academia Mater Salvaroris.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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