DIA DE FINADOS

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No Dia de Finados todos somos chamados a refletir no maior mistério da vida que é a morte. Os cemitérios ficaram cheios, flores, preces, saudades múltiplas. Cada um exprime aos seus entes queridos a sua ligação com aqueles que já partiram.

Essa celebração na Igreja Católica teve origem na Idade Média, em Cluny na França e logo se espalhou na Igreja universal.

Mas desde os primeiros dias do cristianismo, a reverência aos mortos se manifestou com clareza. As catacumbas romanas são um desses sinais cabais. Muitos foram os mortos nos primeiros séculos da era cristã. Seus corpos foram piedosamente recolhidos e colocados em sepulturas onde eram reverenciados. As catacumbas eram cemitérios “pagãos”, mas muitos dos que se convertiam ao cristianismo, como a rica Domitila, doaram seus cemitérios particulares – as catacumbas – para que os corpos dos cristãos fossem ali sepultados. Como os primeiros cristãos se encontravam, por medo das perseguições, nesses locais, as missas eram celebradas em cima dos túmulos. Dessa forma, criou-se uma familiaridade entre mortos e vivos.

A preocupação com a morte sempre preocupou a pessoa. A filosofia clássica diz que o hominídeo só se tornou homem-mulher quando começou a formular as primeiras perguntas básicas da vida : “Quem eu sou, de onde eu vim e para onde eu vou”?

E até hoje a ciência , que deu pulos colossais em termos de controle das doenças, da longevidade, sente-se desafiada com esse mistério. Esse permanece como o mistério não resolvido da ciência e, certamente, o mais impenetrável da história da humanidade.

A Editora Larousse lançou um livro do médico Sam Parnia, intitulado “O que acontece quando morremos”. Lá o autor aborda o tema da quase-morte, isto é, trata do problema de fatos vivenciados em UTIs hospitalares. Sem a roupagem mística que o tema implica, ele é considerado um dos maiores especialistas no estudo científico da morte, dos estudos da mente humana e das experiências próximas da morte.

Já em 1972 foi lançado o livro “Vida após a morte”, do médico Raymond Moody, tornando-se um pioneiro nesse tema. Mas Parnia foi mais além. No hospital britânico de Southampton, seu interesse se concentrou nas informações dadas por seus pacientes que tinham passado pela experiência de terem vivido esse momento clinicamente conhecido como ponto de morte. Dessa forma, ele percebeu que estudar aqueles casos ligados a paradas cardíacas, portanto momentos de quase-morte, trouxeram contribuições valiosas sobre a morte. Nessas experiências de quase-morte, isto é, numa parada cardíaca,diz o médico, “muitos pacientes contam ter deixado seus corpos e assistido a um processo de ressuscitação”.

Há cinco séculos, o famoso pintor holandês Hieronimus Bosch fez um painel – Ascensão para o Império – que pertencia a um conjunto maior intitulado “Último Julgamento”, para o Palazzo Ducale em Veneza. Lá, seres alados conduzem as pessoas que acabavam de morrer, da escuridão para um túnel de luz esférico. Sam Parnia se mostrou intrigado cm essa cena e se perguntou se seu autor passou, ele próprio, por essa experiência de quase-morte. Parnia ainda cita o caso do geólogo e alpinista suíço Albert Heim, que no século XIX viveu uma experiência de quase-morte, tendo sobrevivido a um acidente nas montanhas. Esse foi o primeiro estudo publicado sobre tal fenômeno. Ele descobriu que, em muitos casos, houve uma retrospectiva da vida da pessoa em que, finalmente, ouvia-se “uma linda música e caia-se no que seria um azul profundo e bonito contendo diversas nuvens rosadas”, diz Parnia.

A verdade é que a morte permanece como mistério profundo. Mistério revestido de temor e respeito, por crentes e não-crentes.

Qual a atitude do cristão diante da pergunta sobre o sentido último da existência humana , que a morte nos propõe constantemente? A resposta se encontra na profundeza da fé. A morte para o cristão, segue as pegadas de Cristo: cálice amargo –“Pai, se possível, afasta de mim este cálice”- , mas a certeza de que o Pai nos espera do outro lado do limiar da vida. Morte que é essencialmente não-morte.Como se dará tudo isso, precisamente, não sabemos. A chave de interpretação desse mistério pode ser lido no Prefácio da Missa dos Morte: ”Ó Pai, para os que crêem em Vós, a vida não é tirada mas transformada, e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos céus, um corpo imperecível”.

Sebastião Heber. Professor adjunto de antropologia da Uneb, da Cairu, da Faculdade 2 de Julho. Membro do Instituto Geográfico e Histórico Da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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