A BOA MORTE DE S. GONÇALO DOS CAMPOS

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No próximo dia 15 de agosto, será lançado na igreja Matriz de S. Gonçalo dos Campos,às 10 horas, dentro da Missa solene, o livro “Irmãs do Cajado – A Boa Morte de S. Gonçalo dos Campos”, do prof. Sebastião Heber Vieira Costa. No livro constam mais dois artigos versando sobre o mesmo tema. O do Diácono Luciano Curvelo tem como título “Presença e Fé”. E Roselete Fátima Marques dos Santos, que é sobrinha da Juíza Perpétua,Martina e de Isabel, escreve sobre “Martina e Bé, as irmãs Marias da Boa Morte”. Após a Missa, haverá uma procissão com a imagem de Maria, agora na glória, é assunta aos céus, que teve uma “boa morte”. Faz parte da tradição servir um grande almoço na casa da Presidente.

O prefácio é da Professora Consuelo Pondé de Sena , Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.Ela diz que, com esse livro, “temos um ‘mergulho’ do antropólogo pernambucano/baiano sobre a evidência do antigo culto de Nossa Senhora da Boa Morte, em S. Gonçalo dos Campos, à disposição dos estudiosos da cultura baiana e brasileira”.

A cidade de S. Gonçalo tem um santo português como seu protetor.De acordo com a tradição, esse padroeiro apareceu , no século XVII, na Fonte da Gameleira.Daí surgiu o arraial. Essa região sempre pertenceu a Cachoeira e a emancipação política só veio em 1884.Como tantas outras tradições, essa da Boa Morte, também migrou daquela cidade. A área de S. Gonçalo já tinha uma relevância desde o projeto colonizador. O marquês de Pombal, em meados do século XVIII, já havia legislado em favor da promoção e auxílio da plantação do tabaco nos “Campos da Cachoeira”, como era conhecida essa região.Também os currais de gado, por ele não se aclimatar em Cachoeira,foram deslocados para os campos mais altos e se fixaram naquelas regiões

Essa é uma das cidades que D. Pedro II, na sua célebre passagem pelo Nordeste, planejou visitar.Lá quis conhecer o local do nascimento da cidade, do milagre,isto é, a Fonte da Gameleira.

As principais fontes para o conhecimento da Irmandade da Boa Morte dessa cidade, vêm dos registros de óbitos das irmãs, dos cadernos da Irmandade e das atas da igreja católica. Mas é a tradição oral a fonte mais rica que tem alimentado as pesquisas, mesmo que essa, a fonte oral, represente uma dialética com as fontes escritas.

Essa Irmandade é mais uma sobrevivente do catolicismo tradicional e revela um espaço de resistência e de conservação de cultos ancestrais.

Não há um termo de Compromisso nessa Irmandade, como nas demais e, certamente, é uma Irmandade de devoção. Sua fundadora é Felismina Araujo (D. Biló, como era conhecida) e Cecília Araujo, mãe e filha, negociantes, e a primeira já participara da de Cachoeira . O nome da fundadora já parece no primeiro caderno da Irmandade.

Nessa Irmandade, anualmente os cargos se renovam.Há uma Presidente, uma Vice, a Escrivã, a Tesoureira e a Zeladora (tem a função de vestir e “arrumar “ a santa para a festa). Há objetos sagrados que identificam a irmandade: O Cajado ( que já é centenário) conforme a tradição oral das irmãs e que é levado pela Presidente da Festa; o Baú (simbolicamente contém as doações para a festa); e os Livros, onde estão registrados os nomes das pessoas que contribuem financeiramente , e que se tornaram uma rica fonte de pesquisa histórica. Pode-se ver na representação do Cajado, uma alusão simbólica a Nossa Senhora, que,como rainha, teve um cetro e uma coroa. As celebrações da festa são marcadas por um Tríduo na casa da Presidente e no dia que precede a festa, há uma missa pelas irmãs falecidas.

Atualmente, a senhora Maria da Invenção Cazumbá, ( conhecida como Martina), é a Juíza Perpétua da Festa. Ela substitui sua mãe, Maria Tomásia Felícia, que substituiu sua avó Felismina ( Biló Felícia, como era chamada na intimidade). Mas em cada ano há uma Comissão de Festa para organizar as celebrações. Este ano é a senhora Maria José a Juíza da Festa, sobrinha de D. Martina Cazumbá.

As integrantes da Irmandade sempre vieram dos segmentos mais simples da sociedade. Trabalhavam por conta própria, como vendedoras ambulantes de doces, fato, acarajé, negociavam com ouro em Cachoeira, muitas trabalhavam na lavoura fumageira ou eram charuteiras.

Alcançar uma boa morte, era uma espécie de compensação ou de transposição de sacrifícios: de uma vida de durezas para uma outra melhor, como a de Maria.

As Irmandades representam estratégias de sobrevivência de uma tradição cristã-católica e respondem pela expansão do catolicismo entre as camadas mais populares da sociedade. Essa Irmandade é um sinal concreto dessa persistência e busca. Ela é detentora dessa crença e dessa devoção, ela é guardiã dessa rica tradição. Com ela queremos trabalhar para preservar essa tradição que dá identidade ao nosso povo.

Sebastião Heber. Prof. Adjunto da UNEB,da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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