Um Conto em Tempo de Meditação
Ex-Director do INETI (Coimbra)
Escritor ([email protected])
O Tejo estava engelhado sob o efeito de uma aragem agressiva vinda de sudoeste, sem dúvida desagradável para quem quer que estivesse nos tombadilhos de bombordo. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Estava acompanhado pelos meus pensamentos e pelas imagens daqueles que nos disseram adeus no cais de Alcântara. Os meus pais fizeram sacrifícios para me dar uma enxada, e o canudo atirou-me para um paquete da Companhia Colonial de Navegação a caminho do desconhecido. O meu pai era marceneiro de alta escola. Dedicava-se quer aos estilos ingleses, com as suas teias de vidrinhos, quer aos estilos D.ª Maria e império, onde abundam embutidos de grande beleza artística, feitos com madeiras nobres e contratantes. Tinha uma clientela reputada e, entre os seus clientes, havia um médico de fácies rude e falas bucólicas ornadas por um sotaque transmontano, muito provavelmente assimilado entre fragas de granito. A minha infância fora atribulada, estando por explicar por que razão as maleitas que me visitaram nunca se deram ao trabalho de me levar antes do tempo. Tinha e tenho umas narinas largas como a frente de um wolkswagen carocha, devido à utilização de rolhos de algodão ensopados em água oxigenada e em sumo de limão que serviam para estancar as hemorragias.
O médico laqueava-me as veias, que rebentavam com teimosia, não sei se por fatalidade ou por afronta. O consultório ficava no Largo da Portagem e, para lá da porta, uma mesa secretária com artroses e equimoses esperava os pacientes não raramente atoalhada por alguma papelada. Muito embora as folhas não tivessem motivos coloridos que cativassem a atenção de uma criança, eu preferia concentrar-me na bagunça dos entreténs do médico do que nos fundos do consultório, onde sobressaia a cadeira da tortura aconchegada de utensílios dados a suplícios terapêuticos. Nunca descobri por que razão a resma de papel junto da janela me seduzia mais do que qualquer outra. As vidraças mostravam a estátua de Joaquim António de Aguiar** de viés, razão pela qual me pareceu que o Mata Frades e o médico andavam de candeias às avessas, a esconder coisas que a História queria que fossem divulgadas. Um dia, a coberto de uma conversa acesa que girava em torno de uma papeleira feita para um insigne Professor da Universidade, dei-me ao atrevimento de deitar os olhos à oculta novidade, enquanto o meu pai argumentava, dizendo que um marceneiro não podia comerciar somente com gente da oposição. O médico falava do valor da arte e aconselhava o amigo a assinar as obras que produzia. Aproveitei o ensejo, levantei as folhas, mas fiquei desolado: continham versos rascunhados que não consegui entender.
O médico nunca cobrou dinheiro pelas consultas e, ao descer as escadas compridas e estreitas, que conduziam ao consultório, o meu pai repetia, invariavelmente que, além de ser competente, aquele homem era muito boa pessoa e, ainda por cima, dado às letras. Escrevia livros. E ao som dos gemidos de alguns degraus carunchosos, dei comigo a magicar como é que um homem de aspecto rude podia ter um coração doce, e como é que um médico que tratava de anginas e narizes podia ser escritor. Por essa altura, procurava entrar nos domínios de Emílio Salgari e lia fluentemente “O Mosquito”, onde “Cuto nos Domínios dos Sioux” era a minha história preferida, mas nada do que lia tinha a ver com medicina, narizes e garganta e fiquei admirado quando soube que foi aquele médico, de feitio agreste, que aconselhou o meu pai a matricular-me no Liceu. Muito provavelmente, se não fosse doente do nariz, não era aquilo que hoje sou e não estaria a estas horas a olhar a margem sul do Tejo sem a ver, esquecendo-me por completo de ir ao convés de estibordo admirar a Torre de Belém, os Jerónimos e Cascais. «Será que Coimbra estava apostada em copiar o trajecto decadente de Alexandria, que permitiu a fuga do saber por troca com o pedantismo?» E todas estas recordações geravam, em mim, uma sublime embriaguez até que, à passagem pelo Forte de S. Julião da Barra, uma vaga agigantada bateu com estrondo no navio, clamando pelo presente. O mar esperava-nos de mau feitio, facto que, por experiência própria, podia ser bom presságio. E, agarrado aqui e ali, lá me fui esgueirando até ao camarote, onde Lena me interrogou sobre o motivo da demora…
________________
* Miguel Torga (1907-1995) – Pseudónimo de Adolfo Rocha, médico otorrinolaringologista dado às letras e opositor ao regime de Salazar. Poeta, romancista, contista e dramaturgo, cuja obra está traduzida nas línguas europeias e também em línguas asiáticas, nomeadamente chinês e japonês. Nasceu em Sabrosa (Trás-os-Montes) e viveu em Coimbra. Ganhou vários prémios literários e foi nomeado para o Nobel da Literatura.
**Joaquim A. Aguiar (1792-1884) – Natural de Coimbra, onde se doutorou em leis. Foi liberal combatente, tendo desempenhado, entre outros, o cargo de Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça de D. Pedro IV. Decretou a reorganização dos municípios e a extinção das ordens religiosas, mandando incorporar os seus bens na Fazenda Nacional, facto que lhe valeu a alcunha de Marta Frades
Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I