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(Homilia no Culto Ecumênico de abertura da Campanha da Fraternidade 2010)

Recife, 20 de Fevereiro
“Este e o dia que o Senhor fez, exultemos e alegremo-nos nele”!

Eis, irmãos e irmãs, a mensagem desta Campanha da Fraternidade Ecumênica: Economia em favor da vida. Mas a visão de fé não admite compromissos, pois os dois campos são opostos, ou servimos a Deus ou o dinheiro. Para a Bíblia o dinheiro deixa de ser meio e se torna ídolo que adoramos na medida em que nele se reflete nossa carência de poder sobre as pessoas e sobre as coisas. Buscamos salvar-nos agarrando-nos às “obras de nossas mãos”, tão vazias quanto nós…

O chamamento da Quaresma é claro: de que lado estamos? Até que ponto temos condições de interpelar a sociedade que destroi o meio ambiente, que priva os pobres do alimento, que se compraz no desperdício, que almeja o conforto e a inovação tecnológica sem limites, que não se importa de esgotar no curso de poucas gerações os recursos do planeta… até que ponto temos condições de interpelar a sociedade se assimilamos sua mentalidade, se já não nos sentimos diferentes? Hoje já não só as Igrejas, mas também os cientistas nos chamam à conversão e ao juízo: ou mudamos de vida, ou perecemos com o planeta. Mais do que nunca a conversão nos aparece como uma questão, além de religiosa, essencialmente politicosocial. E a fé cristã, a fé bíblica, se revela em toda a sua atualidade: deixar-se atrair pelo brilho dos ídolos é correr atrás de ilusões e do vazio. Nunca talvez como hoje se revela tão claro que, se seguir a Jesus tem alto custo, custo ainda maior é não segui-Lo. Basta olhar em redor e ver o preço que pagamos por desviar-nos da vontade de Deus – no próprio pecado social nos sobrevém o castigo: desagregação, exclusão, fome, medo, violência, guerras, confiança na pedagogia do terror…

Estamos realmente disponíveis a Deus para lutar por uma economia em favor da vida? Ou ainda pensamos que essa não é tarefa central da fé e da Igreja? Ainda julgamos que a transformação econômica e política da sociedade não tem de estar no coração da Igreja? Está em jogo a obra de Deus, o mundo é a obra de Deus. Julgamos, porventura, que a união das Igrejas não é urgente por não se tratar de assunto de religião ou de negócio eclesiástico? Seremos tão irresponsáveis a ponto de abandonar o mundo ao poder das trevas?

Seria terrível dizer: que posso fazer, eu que sou pequeno e pobre? Só os poderosos têm como resolver tão graves problemas. Ora, são justamente os poderosos a causa principal do problema. Nunca como hoje a sorte da vida dependeu tanto das pessoas comuns, de gente como nós. Os ricos e poderosos não querem mudanças profundas, os governos também não as querem ou já não podem. A sorte do mundo está incrivelmente em nossas mãos, nas mãos das pessoas comuns. A tragédia é, tudo indica, que ainda não temos maturidade para enfrentar tão imenso desafio ético, que começa em nosso quotidiano, das pequenas coisas, no uso que fazemos dos bens que possuímos, nas decisões que tomamos, particularmente, em relação a nosso consumo. Começa no dia a dia de nossa casa, amplia-se nas organizações e movimentos da sociedade civil, alarga-se às nações e aos Estados.

É nossa decisão assumir a militância de Cristo para que seja feita a obra de Deus, mediante a restauração das pessoas e a preservação da criação? Estamos com a firme decisão de rever nosso consumo, de encarar uma vida sóbria e de partilha para que haja vida para todas as pessoas, de colaborar com uma Economia em favor da vida?

Se assim é, que Deus nos abençoe! Se assim ainda não é, que Deus transforme nossos corações e nos converta a Sua aliança!

* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR
www.dar.ieab.org.br

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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