O banquete comunitário

Em seu último discurso, na ceia pascal, a ênfase posta por Jesus foi a união entre os discípulos – a comum-união. Ele orou ao Pai: “Eu não te peço só por estes, mas também por aqueles que vão acreditar em mim por causa da palavra deles, para que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que Tu me enviaste. Eu mesmo dei a eles a glória que Tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um” (Jo 17:20-22). Essa oração seguiu o anúncio de que o Espírito da Verdade viria para desmascarar o mundo e para encaminhar os discípulos para toda verdade e interpretá-la para eles (Jo 16:8, 13, 19).

Durante os dois milênios que seguiram, com as mudanças entre os povos e a propagação dos evangelhos, a oração comunitária da ceia se modificou também. As igrejas iniciais, aquelas fundadas pelos Apóstolos, cada uma tem a sua maneira ou rito para celebrar a lembrança da ceia, como Cristo pediu. Algumas Ordens religiosas antigas como os Domicanos e certos povos têm o seu próprio rito também.

Em todo caso, a estrutura da ceia ou missa se desenvolveu para “re-unir” o povo em comunidade, em comunhão entre um e outro em Cristo. Vê-se no Rito Romano que a forma da missa parece um “M” com quatro movimentos ou atividades. A primeira parte ou perna do M é uma subida. Aí falamos com Deus confessando publicamente que somos pecadores. Pedimos a Deus uma conversão do coração, pedimos perdão a Jesus, e perdoamos uns aos outros como ele nos perdoou. Sabe-se que os pecados estão perdoados e que recebemos a graça para iniciar uma reconciliação com quem ofendemos – que ainda resta. Por isso cantamos juntos com entusiasmo a glória a Deus.

Em seguida, a primeira descida do “M” é a Liturgia da Palavra quando Deus fala a nós. Ouvimos duas ou três leituras das Sagradas Escrituras, nos lembrando de que a Palavra de Deus é Jesus, o Filho encarnado. Escutando a leitura, a luz de Deus toca cada um de maneira particular dependendo de sua vida e do estado de seu espírito no momento. Geralmente o sacerdote, presidindo a missa, oferece à comunidade ou aos paroquianos uma homilia, notando o que ele entende da mensagem que Deus fala a ele mesmo e a toda assembléia. No lugar de um grande “amém” ou “assim seja,” todos proclamam juntos a profissão de sua fé.

No terceiro movimento do “M” vamos subir para Deus. Vamo-nos à “cozinha” para preparar a ceia, todos nós mesmos participando. Com a nossa oferta colocamos no altar todos os nossos problemas, a nossa dor e tristeza, todos aqueles que pesam no nosso coração, incluindo com tristeza aqueles que nos desafiam e com agradecimento os que nos apóiam – tudo simbolizado no pão e vinho que entregamos. Concordando com o sacerdote, que peçamos que Deus aceite o nosso sacrifício posto no altar, pedimos que Deus aceite o nosso sacrifício por suas mãos. Segue, então, o canto de louvor ao Deus do universo com hosanas. Estamos unidos com os braços e corações abertos.

O movimento final vem de Deus até nós. O ministro inicia a oração eucarística louvando a Deus e agradecendo-o pela obra salvadora de Jesus e pela obra santificadora do Espírito Santo. Ele estende as mãos sobre o pão e o vinho – representando todas nossas ofertas, que nos incluem – e pede que o Pai envie o seu Espírito para transformá-las mais uma vez no corpo e sangue de Cristo. Nós somos o Corpo de Cristo, mas admitimos no início da missa que somos pecadores, que fugimos dos nossos compromissos com Cristo e com os nossos irmãos. É que precisamos estar reinstalados nesse Corpo, reunidos e reconciliados com os nossos irmãos – num povo santo, ainda que pecador.

Re-unidos como uma comunidade neste último movimento do M, juntos proclamamos que somos todos irmãos e filhos do mesmo Pai. Curioso que relembramos que Jesus nos deu a sua paz e pedimos em seguida que o Cordeiro no dê a sua paz. Se Ele nos deu a sua paz e ela não está entre nós, admitimos a nossa culpa por não a ter recebido, rezando: “Senhor, não sou digno.” Concluímos este movimento nos levantando, saindo do lugar e, publicamente, indo para participar na ceia, compartilhando o pão e o vinho. Este ato é o compromisso renovado, de cada um e de todos como uma comunidade de fé, de colocar as nossas vidas em ordem – que quer dizer, de fazer justiça com os outros e restabelecer Cristo no centro das nossas vidas. A ceia é a maneira principal e que nos torna capazes de tanto.

Todos sabem como é bom um banquete de celebração. Mas há mais que o gosto. É importante que a comida – proteínas, hidratos de carbono, fibras, vitaminas, e mais – beneficie o nosso corpo, fazendo-nos mais fortes e sadios. Também com a eucaristia. Ela á para reentronizar Jesus em nós e para nos reintegrar no Corpo de Cristo. Assim, poderemos repetir com São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gal 2:20). Vê-se que a eucaristia não é um fim em si, mas sim, um meio em que Cristo nos mantém unidos juntos a Ele. Há um só Jesus Cristo – Filho do Pai, encarnado, morto, e ressuscitado. O Cristo nos tabernáculos das igrejas é importante; o Cristo que nos alimenta na missa é importante. Nada, porém, pode comparar com a importância do Cristo habitando em cada um de nós junto com o Pai e o seu Espírito (Jo 14:23; 1 Cor 6:19; 2 Cor 6:16).

Questionário:

1. Qual foi a razão do povo hebraico para celebrar a ceia pascal?
2. O que entendia São João pela ceia eucarística?
3. Descrever o que São Paulo compreendia pela ceia eucarística.
4. Por que os bispos baixaram o mandamento para comungar pelo menos uma vez por ano?
5. Comparar uma ceia eucarística do tempo dos Apóstolos e séculos mais tarde.
6. De que maneira é a celebração eucarística um banquete comunitário?
7. Descrever os quatro movimentos ou ações da missa.
8. Por que é importante ver a eucaristia como comida?
9. O que deveria acontecer com um cristão ao participar na ceia eucarística?
10. Como você descreveria a ceia eucarística a um principiante?
11. Como você descreveria a missa a um principiante?

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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