Até aqui podemos ver como os sacramentos surgiram das ações e celebrações das comunidades cristãs. Vimos que o Espírito de Deus age com poder quando a fé das famílias devidamente reunidas se encontrou com Jesus dentro delas. Estas atividades formais despertaram entre os membros oportunidades de crescer, de se reconciliar entre si e de ser curados de doenças, rancores, dúvidas e dos outros maus frutos do orgulho. A ceia pascal é a única celebração comunitária que Jesus realmente transformou antes de morrer. Ela se tornou a eucaristia – o sétimo sacramento.

Os hebreus haviam celebrado a ceia pascal muito cedo na sua história, desde a chegada na terra prometida, como Deus lhes ordenou (Ex. 12:25). Celebraram a memória da promessa que o seu Deus passaria sobre as suas portas, ungidas pelo sangue do carneirinho sacrificial, e que não deixaria que o anjo da morte entrasse nestas casas (Ex 12:23). Foi essa ceia que Jesus compartilhou com os seus discípulos no salão de um sobrado na véspera da sua morte (Mt 26:19, Mc 14:13-16, Lc 17:11).

Os três evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – contaram como Jesus partiu o pão, transformando-o no seu corpo e como ele transformou o vinho no seu sangue. Em seguida ele os deu aos discípulos para comer e beber (Mt 26:26-28, Mc 14:22-23, Lc 22:17-20).

Paulo escreveu mais detalhadamente a razão da eucaristia bem antes dos três evangelistas. Ele enfatizou o compartilhar do corpo e sangue de Jesus como a comida da ceia sacrificial (1 Cor 11:23-29).

À primeira vista, parece muito estranho que João, que escreveu mais os ensinamentos de Jesus sobre a eucaristia do que os outros três evangelistas, não haja mencionado nada dessa Ceia além de estarem à mesa? Deve ser que João pressupôs que a eucaristia era bem conhecida e que a verdadeira eucaristia é uma atividade, um verbo de ação de serviço aos outros. João inicia a historia deles naquele salão com o lava-pés (Jo 13:1-17). Depois da saída de Judas, João nos dá o discurso e a longa oração de Jesus (13:31-17:26). Para João, fazer eucaristia, lavar os pés uns dos outros, e amar uns aos outros como Cristo nos ama, são todos a mesma coisa. É para fazer tudo isso em memória de Jesus.

A participação na eucaristia era um símbolo do amor e serviço que cada cristão devia aos outros. Servindo a qualquer necessitado – até aos inimigos – era um sinal de que o cristão estava fazendo eucaristia. Isso Paulo entendeu quando escreveu: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber […]. Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rom 12:20-21).

Por influências diversas através dos séculos que seguiram, esse sentido dinâmico e vivo de fazer eucaristia foi desaparecendo. Sabe-se que os templos grandes chefiados pelo clero tomaram o lugar das igrejas domésticas e íntimas nas casas. O povo ficou separado da mesa, que havia sido substituída por um altar, com grades de ferro. A participação ativa do povo nas celebrações se tornou uma assistência parada, de longe, como nos tempos dos Judeus no seu Templo.

O abandono da eucaristia chegou a tal ponto que os bispos se acharam obrigados a exigir por mandamento a comunhão, no mínimo uma vez per ano, durante o tempo da Páscoa. Do sentido original da eucaristia restou para o povo um pouco mais que um ato de fé, de que Cristo estava presente. O sacerdote, sozinho e longe no altar, no santuário, elevava a hóstia e o cálice bem altos para que o povo pudesse adorar Cristo de longe.

A participação ativa do povo nas celebrações se tornou uma assistência parada e de longe. Perdidos completamente foi o amor e a intimidade das ceias das comunidades de fé. Um esforço de focalizar o povo na eucaristia ocorreu no século XIII com a Festa do Corpo de Cristo. A hóstia foi levada em procissão pelas ruas principais para incentivar a adoração dela pelo povo e foi erguida pelo clero para benzer o povo – havendo perdido até o sentido de comida.

Pelo início do século XX, uns Papas, tal como Pio X, começaram a incentivar a comunhão freqüente e até diariamente. Infelizmente, o povo em geral continuava mal instruído e ignorava o sentido original da eucaristia. Para chegar a ser “digno” da comunhão, por exemplo, tinha que ir primeiro à confissão. Atualmente, nunca será alguém “digno” da eucaristia, não. É Deus encarnado em Cristo quem vem até nós. Não foi porque somos bons ou santos, mas porque ele é bom e santo que nos torna um só corpo com Cristo, que nos torna um como ele é um com o Pai (Jo 17:20-21).

A eucaristia é uma comida pelo qual Cristo chega ao pecador. Foi Jesus que disse: “Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9:13). Nesse sentido, Paulo entendeu que a comunidade de fé reunida era o Corpo de Cristo. Por isso cada um deveria discernir o Corpo e examinar as suas intenções para não comer e beber à própria condenação. Também, Paulo viu a eucaristia como a memória permanente da morte e ressurreição de Jesus – Ele, corpo e sangue, vivo. Ainda entendeu que a eucaristia é a celebração da Boa Nova, da nova aliança de Deus com o mundo todo (1 Cor 11:23-33).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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