Já foi dado início aos festejos dos 50 anos de Brasília. Eles terão seu momento culminante em abril, quando no dia 21 daquele mês se lembrará a inauguração de Brasília, em 1960, pelo presidente Juscelino Kubitschek. Antes de concluir seu mandato, podia transferir o governo para a nova capital, que euforicamente ele estava inaugurando, como símbolo da promessa política de em seu governo fazer o Brasil avançar 50 anos em cinco.

Não há dúvida que a construção de Brasília influenciou o país ao longo desses cinqüenta anos, e continuará influenciando por muito mais tempo. Resta saber como esta influência poderá ser positiva, e como poderemos evitar os equívocos cometidos no bojo da complexa história de Brasília.

Em princípio, a capital de um país se pretende espelho da nação, e síntese de sua realidade. Às vezes o próprio nome tem esta pretensão, como é o caso de Brasília. Até para memorizar a geografia fica fácil a boa cadência: Brasil, capital Brasília!

Mas é preciso identificar o motivo subjacente a este ousado projeto de construir uma nova capital para o país em pleno planalto central, onde antes nada havia além do cerrado proporcionando aos advenientes um bioma fecundo de vida e rico de promessas.

Esta intenção era evidente, e professada claramente pelos idealizadores de uma nova capital. Buscava-se incentivar a integração nacional, neste país de dimensões continentais, que pedia com urgência a valorização do seu imenso interior. Para que assim o Brasil deixasse de ser um país sediado no litoral, voltado para o exterior, e ignorando as potencialidades do seu interior.

E´ bom saber que estes objetivos foram sonhados por outros projetos, antes que Juscelino impulsionasse decididamente a construção de Brasília. No governo Vargas andou sendo pensado um projeto mais complexo, e mais abrangente, da construção de cinqüenta cidades no interior, integradas num amplo plano de desenvolvimento nacional, tendo Goiânia como referência já estabelecida, e cogitando de fazer de cada uma delas um pólo incentivador da agricultura e da indústria. Uma delas seria a sede administrativa do país, limitada a esta função específica, como Washington é para os Estados Unidos.

A decisão política e a obstinação pessoal de Juscelino fez a diferença entre os projetos. Brasília se tornou realidade, enquanto os outros projetos perderam consistência. Agora, é com Brasília que precisamos nos haver.

Num ano de excepcional importância política como este, com as eleições gerais de outubro pela frente, torna-se ainda mais oportuna uma avaliação de Brasília. Seja para explicitar seus valores positivos e a inspiração que ela ainda precisa suscitar no país. Seja para apontar equívocos e ambigüidades, que ainda podem estar contaminando a capital e o próprio país.

Em primeiro lugar, a epopéia da construção de Brasília evoca preciosas lições, que honram a história do Brasil.

Brasília foi fruto de arrojo, de determinação política, e de criatividade. Abriu espaço para a acolher a capacidade profissional de exímios urbanistas e arquitetos brasileiros, que souberam valorizar a oportunidade que lhes era oferecida, de traduzir para a prática o atrevimento dos seus projetos.

Brasília mostrou que o Brasil era capaz de se projetar para o futuro com as dimensões de grandeza que seu território sugeria. E foi envolvendo a nação inteira neste projeto, que teve nos “candangos” o símbolo mais eloqüente do seu desempenho.

Ao mesmo tempo, é forçoso constatar as ambigüidades da construção de Brasília. Para viabilizar o projeto, nos prazos determinados pelo Presidente Juscelino, Brasília contou desde o início com abundância de recursos, que facilmente descamba para o desperdício, e oferece o caldo propício para a corrupção. Quando foi preciso transferir os funcionários do Rio para Brasília, foi necessário oferecer-lhes um estímulo financeiro, que acabou integrado nos custos da nova capital. Disto acabou resultando que em Brasília tudo é mais caro.

O jubileu de ouro de Brasília precisa se tornar em oportunidade de ouro para uma ampla e pertinente avaliação do seu processo histórico, para conferir o quanto ele está associado aos problemas que reiteradamente eclodem a partir de Brasília, seja a nível de seu governo distrital, como a partir das instâncias federais sediadas na capital.

E´ preciso evitar que Brasília se torne uma sangria desatada para o país, e volte a ser fonte de inspiração para os sonhos de um país justo, integrado, desenvolvido e honesto, que todos queremos.

(*) (www.diocesedejales.org.br)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços
[slickr-flickr type=slideshow]