Dasilva 7 de outubro de 2009

 agosto de 2009

1. De vez em quando, com palavras rebuscadas, se repete a orientação dos imperadores romanos de dividir para imperar. Conforme o humor das platéias, o grupo hegemônico sabe criar a linguagem palatável, mas eficaz, para mantê-las no redil. Democracia diz que já não é o tirano que bate no povo; é o povo que, pelo voto, escolhe quem vai castigá-lo. (Na democracia grega, escravo, mulher e trabalhador não votava; só o cidadão). Cidadão diz que as pessoas são iguais, mesmo se uns produzem o pão e alguns poucos comem. Maioria está sempre certa (mesmo se condena o Justo e salva o assassino?) Consenso, decisão horizontal, descentralização, comunidades de base, países emergentes… podem ser eufemismos para iludir o povo e dar a impressão de que os senhores já não imperam.

2. Com esse espírito, foram criadas as regiões brasileiras, no século XIX, em São Paulo. O discurso deve ter sido “pensando no bem estar das populações menos favorecidas, vamos regionalizar”. Só que nessa reunião de criação ninguém falou que o conceito região tem sua raiz em regere (governar, controlar) e a proposta era de São Paulo em cuja bandeira se lê eu conduzo, não aceito ser conduzido. Com esse discurso, e os aplausos das regiões colonizadas, se fez a divisão das novas capitanias hereditárias, se decidiu a vocação econômica de cada região e se selecionou os governantes afinados com essa filosofia. Para a elite paulista, é claro, São Paulo deveria ser, sem sobra de dúvida, a locomotiva do Brasil.

3. A hegemonia se impõe pela força, inclusive com ocupação de território. Junto com esse poder, se gera o temor de encarar tamanho potencial. Mas, o principal caminho é a criação de motivos claros de convencimento capaz de ganhar mentes e corações e de traduzir submissão por solidariedade. Esse convencimento é feito através de mitos criados que, para parecer verdade, se baseiam em fatos reais. O Nordeste virou terra seca, faminta e atrasada e cuja vocação econômica é fornecer mão-de-obra braçal; a Amazônia é selvagem e desabitada e fornece matéria prima. As terras férteis do Sul seria o celeiro do Brasil. Para isso, a elite paulista – machista, racista, patriarcal e preconceituosa – exigiu o branqueamento de sua população. O governo trouxe os sem-terras da Europa, excluídos da industrialização.

4. Às vezes, se escuta que na prática a teoria é outra. Não é outra porque toda prática é a aplicação de uma teoria. Embora a teoria, como sistema lógico de pensamento, seja construída a partir de uma prática social, tornada referencial, a atuação revela a existência de uma convicção. Assim, não existe prática sem teoria, nem teoria sem fundamento prático – são inseparáveis. Nada é mais prático do que uma boa teoria ou, parodiando o autor russo, sem teoria reacionária, não há movimento reacionário. O que pode existir é a contradição entre um discurso e uma prática onde o comportamento não se afina com a afirmação – a pessoa pode fazer juras de fidelidade, com o coração bem longe de seus lábios. Se a prática não condiz com o discurso é porque o discurso pertence a uma intenção escondida.

5. O discurso é capaz de fabricar mitos (verdades aparentes) que, pela repetição e pelo uso, acabam assimilados e reproduzidos como certezas. O conceito de “raças humanas”, por exemplo, foi criado por determinados grupos, como necessidade de justificar sua dominação sobre outros grupos. Serviu para sistematizar as populações humanas e criar esquemas classificatórios que justificam o status quo e a discriminação. O mito das raças, e com ele o racismo, tornou-se uma verdade destruidora ao impor a crença de que os grupos humanos existem em uma escala de valor. Os dalits indianos, na explicação dos monges, devem comportar-se como casta inferior por nasceram do pó. Por que as vacas se tornaram sagradas e a mulher e as crianças viraram a família (de famulus = criadagem) do macho?

6. O mito que é uma ideologia inventada que pode gerar identidades introjetadas e defendidas como nordestino, gaúcho, sulista… e todos os bairrismos e patriotismos. Fabrica-se a homogeneidade de uma região, a partir de algumas características existentes e da proximidade geográfica. No liquidificador de quem coordena o modelo de desenvolvimento, do Maranhão até os limites de Minas tudo é seco, faminto e subdesenvolvido; a forma de integrá-lo é fazer a transposição, manter a indústria da fome e incentivar os bóias-fria, soldados da borracha, garimpeiros, peões de obras… A Amazônia é planície, mesmo tendo o pico mais alto do País; continua terra desconhecida e sem homens, por isso, é preciso ocupá-la e explorá-la…

7. Centralizar e descentralizar são estratégias para expandir e manter o controle econômico, político, cultural e religioso de uma área, por um grupo no poder. Ser região faz parte de um projeto de desenvolvimento, na política das nações e no interno dos países, que garante o processo de acumulação do capital e a divisão social da força de trabalho. O caminho para dissimular o conflito entre capital e trabalho, em determinado território, tem sido a naturalização de uma identidade cultural que envaideça e até fanatize os grupos humanos. Nem sempre a história obedece ao script. Por causa de suas contradições internas e, sobretudo, pela resistência das classes subalternas, até o regionalismo pode virar contra os feiticeiros.

 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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