As comunidades católicas celebram em setembro o mês da Bíblia, sendo que o último domingo é “o dia da Bíblia”, assim como os evangélicos comemoram esta data em dezembro. Cada ano, os bispos propõem um texto ou livro para ser aprofundado e atualizado na leitura comunitária e pessoal da Bíblia. Neste ano, foi escolhida a Carta de Paulo aos Filipenses. É uma das cartas mais belas do apóstolo e foi escrita a uma comunidade que, ele, Paulo, teria fundado na região norte do que, então, era a Grécia. Foi a primeira comunidade cristã da Europa e era composta de pessoas vindas de diversas religiões que se tornaram discípulas de Jesus. Provavelmente, Paulo escreveu a carta quando, pelos anos 56 ou 57, esteve preso em Éfeso, cidade da Ásia Menor (atual Turquia) que não ficava longe de Filipos. Embora o texto atual possa ser a junção de três ou quatro bilhetes escritos pelo apóstolo à comunidade, a carta aos filipenses é o mais afetuoso dos escritos de Paulo. Nele aparece não só a doutrina, mas a sensibilidade e uma verdadeira cultura de amizade e de relações humanas, baseadas não na concorrência e sim na colaboração e na ternura.

Infelizmente, para muitos homens e mulheres de hoje, a Bíblia ainda parece ser um livro cheio de violências e intransigências de um Deus que constrange a liberdade humana e ameaça com o fogo do inferno quem não seguir o que ele ordena. De fato, escrituras religiosas antigas, sejam judaicas, sejam hindus ou chinesas, contém imagens de guerra e de violência que hoje temos de rever e superar. De um lado, as diversas tradições mostram a divindade se inserindo em um mundo como ele é, cruel e violento. Ou Deus entrava nesta realidade como ela era (e de certa forma ainda é), ou não se inseria. Por outro lado, cada vez mais, um número maior de estudiosos/as percebe que, como Mistério de Amor, Deus foi se revelando progressivamente nas diferentes culturas religiosas. Não se deu a conhecer, desde o início, conforme a idéia que hoje, podemos ter dele. Foi em um processo educativo lento e dialético que se inseriu em cada civilização. Falou a linguagem de cada tempo e assumiu todas as culturas, cada uma à sua maneira. Assim, exprimiu o seu bem-querer pela humanidade. Hoje, se mostra presente nos fatos da vida diária e nos chama a construir uma sociedade de paz e de justiça, na qual as pessoas se vejam verdadeiramente como irmãs e em comunhão com os outros seres do universo.

A Bíblia é a escritura de uma revelação divina. O Cristianismo é a única religião que guardou um livro sagrado de outra religião (o Judaísmo). É verdade que acrescentou alguns livros para reler e reinterpretar o primeiro testamento, à luz da experiência nova que as primeiras comunidades cristãs viviam. Mas, a Bíblia é o livro sagrado de duas religiões e usado nas sinagogas judaicas e em todas as Igrejas cristãs. Pode ser interpretada de diversas formas, mas para se compreendê-la bem é bom perceber a evolução de como, nela, Deus vai se revelando. Nos tempos antigos, as pessoas o adoravam como terrível deus das tempestades e poderosa divindade dos clãs hebreus. Mais tarde, Jesus Cristo o revela como paizinho de amor e ternura, presente em cada gesto de carinho humano e atuante onde as pessoas se tornam mais amorosas.

Em um mundo tão complexo como o atual, a Bíblia não pretende ter respostas para tudo e menos ainda legislar sobre problemas próprios dos tempos atuais. A 2ª carta de Pedro compara a palavra da Bíblia a uma lampadazinha que brilha em um lugar escuro. Clareia o suficiente para que, no caminho árido e sombrio da noite da fé, não se tropece em uma pedra ou se caia em um buraco mais fundo. O texto esclarece que, mesmo se é uma lamparina pequena, esta palavra da Escritura é útil até que o dia clareie e o Cristo, sol de nossas vidas brilhe em nossos corações. Então, a luz do próprio dia fará com que não se precise mais de uma frágil lanterna (Cf. 2 Pd 1, 19ss).

Em português, existem boas traduções bíblicas, umas mais populares e outras mais para estudo. O importante é que os termos antigos possam ressoar como palavra atual e que fale ao coração das pessoas e principalmente da juventude atual. Então, poderemos compreender e vivenciar o que Paulo propõe aos antigos filipenses: “Alegrem-se sempre no Senhor. Eu insisto que se alegrem. Seja o equilibro de vocês percebido por todas as pessoas. Deus Amor está perto!” (Fl 4, 4- 7).

(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços
[slickr-flickr type=slideshow]