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Entre o ano 2000 e outubro de 2006, somente no Japão morreram 54 pessoas em decorrência de supostos efeitos colaterais relacionados ao medicamento Tamiflu. Entre elas, 16 eram crianças ou adolescentes e em boa parte dos óbitos há indícios claros de tentativas de suicídio. Os números são públicos e fazem parte do banco de dados do Ministério da Saúde daquele país.

Em 2007, o governo japonês proibiu de vez a ingestão de Tamiflu por menores de idade, depois que novos dois casos foram relatados às autoridades sobre adolescentes que pularam do segundo andar enquanto se tratavam com Tamiflu. Relatos parecidos também são encontrados em outros países, embora até hoje ninguém tenha conseguido comprovar cientificamente uma relação direta.

Enquanto isso, o Tamiflu continua a ganhar novos mercados, principalmente em países subdesenvolvidos que somente agora, com a epidemia da gripe suína, estão conseguindo importar ou comercializar o remédio que, por sinal, não é barato.

O Tamiflu é o mesmo remédio que tem sido encarado pelo governo brasileiro como o santo graal da luta contra a gripe suína. Os médicos protestaram contra as limitações e o governo cedeu. Hoje, qualquer médico pode receitar o Tamiflu de acordo com suas próprias conclusões. Como de praxe, vão receitar o Tamiflu aos primeiros indícios de gripe, na esperança de que caso confirme ser a do tipo H1N1, os pacientes já estejam devidamente medicados e a caminho da cura. É uma lógica até eficaz, mas resta saber se todos estão devidamente informados sobre a “atuação” do Tamiflu em outras praças. Considerando o silêncio do governo brasileiro e dos principais meios de comunicação, é de se duvidar.

Na prática, o Tamiflu é um medicamento desconhecido na América Latina e principalmente no Brasil, embora seja bastante popular nos Estados Unidos, no Japão e em outros países dito desenvolvidos. Quanto mais casos de morte por gripe suína são reportados na América Latina, maior é o tom alarmista e menor é o conhecimento científico da população sobre variáveis presentes na epidemia e na cobertura da imprensa.

O Tamiflu é uma das variáveis mais curiosas. Informações e esclarecimentos sobre potenciais efeitos adversos do Tamiflu estão totalmente fora das manchetes dos jornais, mesmo com tantos precedentes. Não se trata de ir contra o medicamento, o qual em várias situações provou-se ser a única solução realmente eficaz contra a gripe suína. Mas de informar a população sobre os questionamentos clínicos e científicos os quais, até hoje, não foram explicados com o devido rigor científico.

Estudos sobre efeitos colaterais do Tamiflu em crianças e doenças dermatológicas em adultos são ignorados no Brasil e varridos para debaixo do tapete pela imprensa. Na Inglaterra, um estudo da Health Protection Agency (HPA) publicado agora em 2009 mostra uma “alta proporção” de efeitos colaterais entre crianças que tomaram o Tamiflu, dos quais o pior é a alta incidência de pesadelos e outras adversidades psicológicas.

O laboratório Roche, fabricante do Tamiflu,respondeu oficialmente às preocupações levantadas pelo estudo da HPA. Conforme mostra reportagem do Telegraph publicada no dia 31 de julho de 2009, a Roche informa “ainda não haver estabelecido” a relação entre o Tamiflu e efeitos colaterais neuropsiquiátricos.

A falta de profundidade na cobertura da gripe suína não é exclusividade da América Latina. Ainda em julho, um dos colunistas do jornal Los Angeles Times, James Rainey, criticou a superficialidade da imprensa norte-americana, condenando o excesso de alarme e a carência de informações precisas à sociedade. No Brasil a situação é um pouco pior, porque aqui o Tamiflu é um ilustre desconhecido. Consequentemente, os médicos têm pouco alicerce para melhor ponderar os efeitos colaterais entre os brasileiros.

Obs: Publicado no Diário de Pernambuco.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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