A festa da Epifania, ou festa de Reis, como é popularmente chamada, é em termos de calendário litúrgico, mais antiga do que a própria festa de Natal. No Oriente cristão ela veio primeiro concentrando todos os valores e acontecimentos relacionados com o Cristo Messias esperado. Epifania significa a manifestação do Senhor às Nações. Aquele pobre Menino da gruta em Belém tinha uma missão que era a de iluminar as nações como portador da PAZ dos céus, aquela que é fruto do Espírito. Ele veio para religar o que parecia perdido.O grande mistério que circunda a sua vida é que, conforme João o Evangelista, “Ele veio para os que eram seus e os seus não o receberam”. Por isso é que os Reis Magos são convocados para serem sinais dessa grande reunião de povos em torno do Cristo gerando unidade em torno da família humana.

A celebração do Natal, enquanto história, é um dos mais perfeitos sincretismos já realizados no cristianismo. Em Roma predominavam os cultos ao deus sol, especialmente no período de dezembro quando entre 21 e 25 de dezembro havia o fenômeno do solstício de inverno. Num desses dias o sol incidia num raio brilhante como numa despedida antes de mergulhar no sono do inverno. E Roma estava invadida de cultos miscigenados. Os gregos trouxeram da Pérsia o culto ao deus Mitra, que passou para a Grécia e de lá veio para Roma. Ao visitar essa milenar cidade, ao lado do Coliseu encontra-se a igreja de S. Clemente, o terceiro Papa após Pedro. E num subterrâneo que corresponde ao segundo andar inferior , encontra-se um mitreu, isto é, um pequeno templo devotado ao deus Mitra. Nesses dias de solstício, os cultos a Apolo, o deus da luz, associado a Mitra, predominavam na cidade Eterna. E isso feriu a sensibilidade dos cristãos que viam naquelas festas “carnavalescas” um culto idolátrico, isto é, uma adoração ao sol, que era uma criatura. Então se lembraram do Cântico de Simeão que ao receber Cristo, nos braços, vibrou de alegria exclamando: ”A luz do sol nascente veio nos visitar”. Imbuídos desse espírito de que se deve adorar ao Criador do sol e não à criatura – isto é, o sol – começou aquele tempo a ser marcado como o nascimento do Cristo. Claro que Cristo entrou na história nascendo numa data. Mas o Natal é uma data mais teológica do que histórica.

E a Epifania foi a celebração que concentro u todos esses acontecimentos misteriosos: o nascimento e a apresentação de Cristo às Nações através dos Magos que trazem simbolicamente seus presentes : ouro ao rei, incenso ao que é Deus e mirra ao que vai morrer. Há, portanto, uma convocação à constituição de um novo povo e a Igreja quer ser na sua vocação primeira, sinal disso, comunidade dos que crêem, uma casa aberta ”a todos os homens e mulheres de boa vontade”.

E como os grandes acontecimentos sempre passam pela Bahia, há alguns que dizem que os Reis Magos são baianos e vêm de Santo Amaro. A escritora Mabel Velloso, recorda esse fato e o consagrou numa bela poesia onde evoca a família do Pe. Sadoc. O pai dele, o Sr. José Porcino, homem de grande fé religiosa, colocou nos três filhos os nomes dos Reis Magos, Gaspar ( Pe. Sadoc), Belchior e Baltazar.

Diz o poema :
Aos três meninos chegados /Os nomes dos três Reis Magos
Zé Porcino escolheu /Na hora dos batizados.
Era bonita a história / Dos Reis que foram a Belém
Para ver o Deus-Menino /Prenúncio de todo bem
Repetindo a linda história / Mesmo que, em vez de Reis
Fossem pela vida afora / Vassalos do Rei Senhor
Eram então os Reis da casa /Ainda bem pequeninos
Gaspar, Belchior, Baltazar.

(*) Sebastião Heber Vieira Costa. Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da BA, da Academia Mater Salvatoris e do Instituto Genealógico.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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