Ex-Director do INETI(*) (Coimbra)
Escritor ([email protected])

O ar estava gelado, a noite não tinha estrelas e só o marulhar das ondas dava eco àquele lugar. Do lado de dentro do porto, havia traineiras dormindo, que soltavam suspiros oriundos das amarras que as prendiam ao firme. Para lá da doca, uma poalha de luz poluída indicava o poiso da cidade. Cheirava a peixe e a gasóleo e as gaivotas quedavam-se a olhar o mesmo de todas as noites, até que a voz de um velho, agasalhado por um sobretudo negro, riscou o mundo hibernante, esgrimindo o silêncio com uma bengala sem castão de merecimento.

– Eh! Não faça isso, homem de Deus! Você é demasiado novo para cometer uma loucura dessas…
– Não se aproxime, se não, atiro consigo ao mar, – retorquiu um homem de aspecto jovem que, indiferente ao frio, se preparava para se deixar afogar pelas águas geladas do Atlântico Norte.
– Por que razão há-de um homem querer matar-se no viço da vida? – Inquiriu o velho procurando iniciar um diálogo apaziguador.
– A minha vida não tem solução! – Gritou o desesperado. – Afaste-se, ou vai também comigo!…
– Explique-se melhor, caro amigo… – interpelou o velho. – Quem sabe se eu não o posso ajudar?
– Ninguém até hoje me quis ajudar, por que razão o faria você? Preciso de muito dinheiro!
– Quem sabe se não serei um enviado do Além para impedir uma loucura sem nexo. Dinheiro é o que não falta, veja este livro de cheques! – Gritou o velho, agitando um livro de cheques com uma mão, enquanto, com a outra, firmava a bengala que se apoiava, tremulamente, no empedrado do cais.

Pela primeira vez, o suicida desviou o olhar do precipício para encarar aquela mão senil que acenava, do lado de cá da vida, como se pretendesse arrancá-lo ao negrume de um acto tresloucado, enquanto a morte aguardava, com paciência, submersa nas águas do mar. Hesitando, o homem deu um passo à retaguarda, enquanto o velho começou a aproximar-se, pé ante pé, perguntando com um sorriso estranho e alienado, próprio de quem estava ali por força de um desígnio que era seu, mas não lhe pertencia.

– Quanto precisa? – Disse o velho, puxando de uma caneta, pronto a passar o cheque correspondente ao valor de uma vida.
– Dois mil contos! – Exclamou o suicida com olhos esbugalhados, que reflectiam um emaranhado de ilusões feitas de infortúnio e a incredulidade.

O velho passou o cheque, juntou à quantia pedida mais quinhentos contos e, sem dar importância ao sucedido, bateu com a mão no ombro do homem e disse: «Se você não é um falhado vai vencer. De hoje a um ano, aqui voltarei para rebater o cheque. Se vencer, cá nos encontraremos, se não vencer, terá então oportunidade para consumar o suicídio» e, dizendo isto, voltou as costas e afastou-se em direcção à cidade. O suicida examinou o cheque, com olhos curiosos e confusos, e, quando levantou a mão para agradecer ao velho, só viu a bruma que se soltava do mar para deglutir o mundo próximo e remoto, objecto a objecto e casario a casario. Passou-se um ano e o homem superou as dificuldades da vida. Quando os credores viram o cheque com tanto dinheiro, prestaram-se a dar-lhe mais folga e, com uma gestão apropriada, a vida começou a desafogar-se. Aos poucos e poucos, o azar foi-se dissolvendo no dia-a-dia, até que desapareceu por completo, sendo substituído pela sorte que acabou por instalar-se, confortavelmente, na nova residência, fazendo ressurgir um ano de bem-aventurança, que passou fugaz e desprendido.

Alegre e cumpridor, o homem voltou ao cais para pagar a dívida de gratidão àquele que, para além de o salvar da morte, lhe dera rumo à vida. O céu estava limpo e pontilhado de estrelas. Héspero, semi-oculto pelo brilho de Vénus, indicava o caminho do sol-posto, enquanto as filhas se agitavam de encantamento, pois tudo o que usa pôr-se também se levanta. Passeou no cais para trás e para diante. As badaladas da meia-noite aproximavam-se, mas o velho não aparecia. Empoleiradas nas embarcações, as mesmas gaivotas presenciavam a cena, apurando o olhar e grasnando de impaciência, até que o feliz homem vê o ancião a dar a volta lá no início do cais, movendo as três pernas, com a agilidade que faz dos determinados, gente de sucesso. Dirigiu-se para ele, com um rasgado sorriso nos lábios e, de mão estendida, exibia com a alegria própria daqueles que sabem o que é voltar a amar a vida, o cheque que tremulava ao sabor de uma amena brisa de júbilo. Mas o velho não o reconheceu e continuou a andar em frente, como se nada se tivesse passado. A insistência tornou-se acintosa e sempre que olhava o velho de frente, este de olhos fitos no destino, estugava o passo a três pernas, como quem tem um encontro marcado num outro anco da vida, até que um terceiro homem se interpôs para, de modo profissional, pôr termo àquela enigmática coreografia:

– Por favor senhor, não incomode o meu paciente.
– Mas eu tenho de lhe devolver este cheque. Combinámos encontrar-nos aqui, hoje, para cumprir um acordo. – Reiterou o ex-suicida, com a bonomia própria daqueles que têm a consciência do dever e a esperança de o poder cumprir.
– Não se importe, caro amigo. Aludiu o terceiro homem. Ele sofre de desdobramentos de personalidade, doença que se tem vindo a agravar, à medida que o tempo passa.
– E que tem ele agora?
– Voltou ao tempo em que era marinheiro e olha a noite à espera do código de luzes para poder embarcar. A guerra perturbou-lhe a mente. Foi torpedeado duas vezes e bombardeado outras tantas, e sempre se salvou. O mais engraçado de tudo, é que nunca soube nadar. Uma vez andou à deriva onze horas e, na mais grave das situações, sobreviveu um dia agarrado a uma prancha com mais três colegas, até serem resgatados pela marinha americana. Foi fogueiro em vários cargueiros, andou no Pacífico e no Atlântico Norte.
– E que outras maluqueiras tem ele?
– Treinador de futebol, mestre-de-obras, capelão, historiador e tantas mais, mas, na fase aguda, é sempre comandante de um navio. Dá ordens e fecha-se a escrever o diário de bordo, fazendo do quarto a cabine de comando.
– E nunca teve outros transtornos, tentando passar por rico e filantropo?
– Rico e filantropo!? Essa demência nunca lhe foi diagnosticada! Ele tem alguma coisa de seu, mas não chega para praticar a filantropia. Esconde algum dinheiro em lugares que depois não é capaz de recordar, e o livro de cheques está, há meses, retido no cofre do lar, mas nunca mais se referiu a ele. Deve-o ter esquecido, em definitivo.

O ex-suicida dobrou o cheque, meteu-o na carteira, olhou para o lugar onde esteve prestes a encontrar-se com a morte, mas o futuro puxou-o e segredou-lhe que há ocasiões na vida em que é preciso não olhar para trás. As gaivotas pararam de grasnar; uma após outra levantaram voo e acompanharam o homem até ele desaparecer, de vez, por entre as esquinas da cidade. Por mera curiosidade, antes de rasgar o cheque, o ex-suicida foi ao banco para saber se havia provimento, sendo informado que a conta ainda estava aberta, mas o valor em depósito era manifestamente exíguo.

Coimbra, 2005

(*)*INETI – Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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