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– … esta é a verdade, Esaú.
– Você quer dizer, sua verdade, não é?
– Não, o que eu disse é a verdade e está na Bíblia.
– Você falou do jeito que está escrito. Será que decorou porque não entendeu ou tem medo de dar opinião?
– Nem um nem outro. O que está na Bíblia é a pura verdade.
– Ah! Deixe pra lá, esta conversa não tem futuro.
– Espere, desarme-se. Não entendo você, Esaú. Seus pais são religiosos e você não tem religião? Por que estuda Teologia?
– O que tem a ver? Eles aceitaram uma religião, mas isto não significa que tenho que aceitá-la.
– Tem sim, Esaú. Você não é ateu, é?
– Não. No entanto, continuo a afirmar: o que me disse pode ser ou não verdade. Nem tudo que está na bíblia é o que se entende. Da forma como foi escrita, dá margem a muitas interpretações. Vamos encerrar por aqui. Este assunto não nos leva a nada.

Enquanto isso, um homem de paletó e gravata borboleta, lia um grosso livro de capa preta sentado no mesmo banco da praça que eles. Ao pressentir que a conversa chegara ao fim, dirigiu-lhes a palavra:
– Perdão, rapazes. Posso tecer algumas considerações sobre o que discutiam?
– Por mim tudo bem. – Respondeu Esaú. Adauto baixou a cabeça sem nada dizer.
– Gostaria da atenção de vocês por alguns minutos. O homem há muito busca entender a verdade. A princípio imaginava que se um dia a conhecesse seria poderoso. E, utilizando-se da força física, tentou impor o que considerava verdadeiro. Tornou-se respeitado, feliz. No entanto, algo continuava a inquietá-lo. Na tentativa de sanar a angústia, descobriu que o poder financeiro em algumas pessoas além de proporcionar-lhes vida alegre, sem traumas aparentes, tornava-os respeitados. A palavra dele virava lei. Entusiasmado encheu-se de egoísmo. Não demorou muito para perceber que o domínio pelo seu semelhante não preenchia o vazio como imaginara. A felicidade não era duradoura. Ainda em busca de torná-la permanente, observou que não dependia apenas de poder e sim de valores agregados à formação da sua personalidade.
– Conforme as conveniências. É isto a que você quer dizer?
– Sim Esaú, até certo ponto sim. No início, atribuíam a educação recebida. Depois, cada um assimilava ao seu modo. O pensar e agir são pessoais. A felicidade se aproxima ou se afasta de acordo com os valores que cada um agrega. Para ter momentos de felicidade o homem tem de se conhecer a si mesmo. Assim as alegrias e tristezas serão cartas conhecidas da sua personalidade. Com isto, rapazes, a verdade de cada um se tornará explicita. Às vezes até única. Vocês têm razão no que defendiam. Continuem discutindo o assunto e irão notar que as verdades se aproximam. Nunca pensem que ela será única ou igual. Os caminhos, embora distintos, conduzirão a um entendimento porque a base da discussão é a mesma. Desculpem-me por ter falado tanto. Sempre me entusiasmo e esqueço que esta é a minha verdade e não a de vocês. Até outra hora. Foi um prazer conhecê-los. Em breve nos veremos na faculdade.
– Graças a Deus ele se mandou. Esaú, ele ensina mesmo o que?
– Sei lá. Se for professor quero que seja do último período. Já pensou quando ele falar sobre a ressurreição?

No corredor da faculdade encontraram-se com uns conhecidos e se informaram da sala em que teriam a primeira aula de Teologia. Os colegas responderam que já estava na hora. Fossem rápidos, pois o professor não tolerava alunos que chegavam atrasados. Aceleraram os passos e apenas duas cadeiras, no final da sala, se encontravam vazias. Naquele momento o professor, com o livro de capa preta na mão, paletó e gravata borboleta, acabara de entrar cumprimentando os alunos. Esaú e Adauto se entreolharam:
– Bom dia a todos. Meu nome é Elias. Não o profeta, mas um seguidor de suas leis. Vocês já devem ter ouvido falar do meu método. Muitos aqui nesta sala são veteranos. Acredito que devem gostar muito da matéria que ensino. Um fato é certo, prestou atenção, tem condições de entender o assunto. – Mais uma vez Esaú e Adauto se entreolharam:
– Vocês dois aí no meio da última fila, por exemplo, já tiveram a oportunidade de conhecer um pouco do que pretendo com o conceito de verdade, não é mesmo? – Os dois balançaram a cabeça em sinal de aprovação.
– Você, Esaú, não é esse o seu nome?
– Sim, senhor.
– Pois bem, ouvi um pouco do que conversavam na praça sobre a verdade da Bíblia. Entendi que você explicava para o seu amigo que uma verdade pode não ser única. Tudo depende da forma de entendimento de cada um, foi isso mesmo?
– Sim.
– Então, continuarei o assunto a partir daí. No final da aula os demais alunos irão lhes procurar. Passem para eles o que discutiam lá na praça. Neste primeiro contato com vocês vou falar das necessidades do homem que desde os tempos primórdios procura entender os mistérios da vida. – Com o domínio da escrita, tornou-se mais fácil registrar as diversas teorias do nascer e morrer, do ato de amar e dominar o próximo. No entanto, o seu maior obstáculo continua, até hoje, o entendimento da felicidade e do amor…

– Adauto, não sei se vou ficar até o final da aula.
– Cala a boca, Esaú, ele não tira os olhos da gente.

Obs: A Parte II será postada no dia 18.10.2008

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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