(rochaedilson@yahoo.com.br)

“O homem vale o que é diante de Deus e nada mais”.
(São Francisco de Assis)

Nos últimos anos, a Família Franciscana vem realizando uma série de celebrações em torno do oitavo centenário da conversão de São Francisco de Assis. Com a conversão dele também se iniciou o movimento franciscano. Talvez por não haver consenso entre os diversos segmentos do movimento franciscano quanto às datas, têm acontecido eventos celebrativos um pouco por toda parte desde o ano passado (2007). A Primeira Ordem (a Ordem dos Frades Menores em seus três ramos: OFM, OFMCapuchinhos, OFMConventuais), por sua vez, está celebrando os oitocentos anos da aprovação da primeira regra de vida apresentada por São Francisco ao Papa Inocêncio III, o que deu início oficialmente a esta Ordem religiosa. Este fato teria acontecido entre março e junho de 1209 e a aprovação papal teria sido de modo informal, sem uma bula de confirmação, o que não era a praxe da chancelaria pontifícia naquele tempo. Normalmente todos os atos oficiais da Cúria eram “bulados”, ou seja, selados com o brasão papal.

Se se considerar o ano da conversão de São Francisco para estas celebrações, estamos todos um pouco atrasados, pois as celebrações deveriam ter sido feitas a partir de 2004 ou 2005. O início da conversão de Francisco, segundo as fontes franciscanas, situa-se em algum ponto entre os finais de 1204 e inícios de 1205. Mas isso não importa. O que é importante é que estas celebrações têm sido motivo de grandes mobilizações e oportunidade para muitas reflexões em torno do personagem que deu origem a um movimento que cresceu muito ao longo destes oito séculos de sua existência. Falava-se há alguns anos atrás em mais de oitocentos mil membros pertencentes à família franciscana. E sabe-se que Francisco ainda continua mexendo com mentes e corações de muita gente pelo mundo e pelo tempo a fora, inclusive em âmbitos extra-católicos. Entre as inúmeras biografias de São Francisco publicadas em anos recentes, está uma escrita por um dos maiores medievalistas da atualidade, Jacques Le Goff (LE GOFF. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record, 2001). A revista Veja, normalmente muito anti-clerical e anti-católica, na época do lançamento da primeira edição brasileira da obra de Le Goff, fez uma crítica muito positiva ao livro por causa da importância do autor, mas no fundo também por causa do significado do personagem biografado.

Jacques Le Goff, na cronologia apresentada em sua obra (pp. 15 – 19), situa a conversão de Francisco no ano 1206 e a aprovação da primeira regra por Inocêncio III, em 1210. Mas estas pequenas discrepâncias em torno de datas não importam tanto. O que importa mesmo é o significado de Francisco de Assis na história do cristianismo e da Igreja Católica. Trata-se de um homem que se projeta para o futuro justamente por aquilo que ele foi e continua sendo na história do Ocidente cristão: um sinal luminoso cujos reflexos se esparramam em todas as direções, iluminando sua própria pessoa e todos que são tocados por algum dos reflexos de sua figura admiravelmente luminosa e sempre atual.

Não é casual o fato de que o Pai dos Estudos Franciscanos na época Contemporânea tenha sido um protestante francês de nome Paul Sabatier. Também não é por acaso que existem simpatizantes de São Francisco em meios não-católicos e que exista inclusive uma “Ordem dos Franciscanos Ecumênicos”, que reúne admiradores do pobrezinho de Assis em meios protestantes e mesmo em meios não confessionais cristãos. Se alguém desejar conferir esta afirmação basta digitar o termo “franciscanos” ou “Franciscans” em algum site de buscas da internet para ver uma avalanche de ocorrências que vai levar aos endereços de alguns destes grupos. Ficou muito conhecida também a enquete promovida pela revista Time, na última década do século passado, entre seus leitores, para levantar uma lista das personalidades mais importantes do milênio que se fecharia no final da década. Entre as personalidades mais indicadas apareceu São Francisco de Assis, figurando entre personagens tais como Johannes Gutenberg, Cristóvão Colombo, Michelangelo, Martinho Lutero, Galileu Galilei, William Shakespeare, Thomas Jefferson, Wolfgang Amadeus Mozart, Albert Einstein, etc. (cf. Revista Grande Sinal 53 [1999]pág. 387).

“As lições do franciscanismo nascem modernas na Idade Média e reafirmam sua atualidade inequívoca no século XXI”, diz o apresentador da edição brasileira do São Francisco de Assis, de Le Goff. De fato, São Francisco é muito maior e mais atual do que todo o movimento franciscano. Ele vale muito pelo que é diante de Deus e diante da humanidade: um homem evangélico, um santo muito humano, que foi filho do seu tempo, mas totalmente livre dos condicionamentos de seu contexto social e eclesial, um homem totalmente livre também de todo tipo de estruturas e amarras institucionais. Um homem que apontava para o futuro em muitos sentidos, entre estes, a sensibilidade ecológica, tão urgente em nosso tempo de crise ambiental e tão marcado por tendências desumanizadoras e despersonalizadoras, típicas da cultura niilista pós-moderna. Ao individualismo subjetivista consumista egocêntrico da cultura pós-moderna líquida, Francisco propõe a busca de saídas coletivas e a construção comunitária de uma nova humanidade.

As celebrações dos oitocentos anos, seja da conversão de São Francisco, seja da fundação da primeira Ordem ou do movimento franciscano, são um forte motivo para se contemplar, uma vez mais, o valor deste homem pelo que ele foi diante de Deus e diante da história. É oportunidade de o movimento franciscano ver o tanto que ainda tem a aprender com seu fundador. Especialmente numa época de mudanças tão profundas, tão rápidas e tão radicais e numa mudança de Época, como a nossa, o movimento franciscano deveria hoje ser fiel ao que foi no contexto de suas origens: resposta aos desafios de um mundo em profundas transformações. No dizer de Jacques Le Goff, “[…] há poucos movimentos tão próprios para exprimir e para esclarecer qualquer momento da humanidade. Abrir-se e ao mesmo tempo resistir ao mundo é um modelo, um programa de ontem e de hoje, de amanhã sem dúvida”. E o movimento franciscano hoje, superando suas contradições, incoerências e, sobretudo, sua fragmentação, pode oferecer alternativas a este mundo tão necessitado de experiências significativas de movimentos proféticos, contra-culturais, mas em diálogo aberto com ele, se quiser ser fiel a seu fundador e à “graça de suas origens”!

Manaus, 04/09/2008.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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