Marcelo Barros 14 de outubro de 2008


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Em todas as culturas, a convivência humana e a comemoração das alegrias ocorrem em torno da mesa e dos alimentos. A alimentação tem a finalidade de sustentar a vida biológica, mas vai além disso: é expressão de convívio e instrumento de comunhão fraterna. Infelizmente, esta tradição cultural não é valorizada pela sociedade moderna. Esta prefere o lucro à partilha e valoriza mais a concorrência do que a colaboração.
Neste ano, comemoramos o centenário do nascimento do economista Josué de Castro que, nos anos 40, escreveu a Geografia da Fome. Ele afirmava: “O mundo tem recursos suficientes para nutrir uma população muito maior do que a atual. A natureza tem recursos suficientes. É boa e generosa. Os culpados pela fome no mundo são alguns grupos que se apoderam dos recursos naturais e os dividem de forma injusta e ilegal. Vivemos num mundo de abundância em meio à miséria”. Isso que era verdade na época de Josué de Castro, ainda é mais real atualmente.

De 2007 para hoje, algumas multinacionais de alimentos compraram safras inteiras de cereais para retê-los e, assim, vendê-los por um preço mais caro. Além disso, diversos países desviaram terras do plantio agrícola para a produção de etanol. Por isso, o número de pessoas com fome no mundo aumentou de 850 para 925 milhões. Calcula-se que 178 milhões de crianças, em 62 países, estejam sofrendo de grave desnutrição e corram riscos de morte. Em Roma, Jacques Diouf, diretor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), declarou: “O motivo principal desta crise foi a disparada dos preços dos alimentos, impostos pelas multinacionais”. Nos dias atuais, todos os dias, os meios de comunicação dedicam horas e horas a debater a crise da economia norte-americana e a quebra das bolsas, mas não dizem que esta crise do sistema incapaz de garantir vida para a humanidade é muito mais grave e estrutural.

Desde 1999, a ONU estabeleceu que, cada ano, o 16 de outubro seja o “dia mundial da alimentação”. A FAO não consegue que governos ricos destinem 1, 2 bilhões de dólares para acabar com a fome no mundo. Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos e seus aliados gastaram, no ano passado, mais de um trilhão de dólares em armas (Cf. Folhapress, São Paulo, Primeira Chamada, p. 8).

Mesmo em meio a uma política que continua sendo neoliberal e dependente do pagamento da divida externa, o governo brasileiro conseguiu uma vitória ao por na agenda internacional o conceito de segurança alimentar e nutricional. Não basta garantir alimentos suficientes para todos. É preciso que a produção, transporte e armazenamento proporcionem a todos alimentação suficiente, segura e nutritiva. Este princípio de segurança alimentar e nutricional deve ser objeto de política pública. No Brasil, desde 2003, voltou a funcionar o CONSEA, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, para garantir não só a quantidade, mas a qualidade dos alimentos. A 2ª Conferencia Nacional sobre Segurança Alimentar e Nutricional consagrou o direito à alimentação como direito básico de todo ser humano. Finalmente, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), institucionaliza no Brasil o combate à fome e torna este cuidado com a segurança alimentar um dever do Estado e não só dos governantes.

No mundo, o Brasil é o segundo consumidor de defensivos agrícolas e alimentos transgênicos. Apesar de que, em todo o território nacional, as mulheres camponesas reinventam a agricultura pela seleção de sementes naturais para garantir uma alimentação saudável, cinco grandes multinacionais dominam o mercado do agro-negócio e afogam o Brasil com produtos tóxicos, dos quais a própria sociedade internacional proíbe o uso de alguns. Já séculos antes de nossa era, Hipócrates, o pai da medicina, ensinava: “Seja o alimento a tua medicina”. A garantia de uma boa saúde começa pelo cuidado com o alimento. Todas as tradições espirituais valorizam o alimento como sacramento da relação com o Divino. Cuidar da alimentação sadia e lutar para que ela seja acessível a todos não é somente um principio de humanidade. É também caminho de intimidade com o Espírito que vem a nós no pão, no vinho e na partilha. No Novo Testamento, um documento atribuído ao apóstolo Tiago conclui: “A religião pura e correta consiste em socorrer os órfãos e as viúvas nas suas necessidades e manter-se livre das corrupções deste mundo” (Tg 1, 27).

· *Monge beneditino, teólogo e escritor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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