A alternância dos partidos no poder é elemento chave na teoria da democracia, servindo até mesmo para alertar os que o ocupam, no momento, no plantão que o cargo oferece, que tudo é passageiro e provisório, dado ao fato de que nova eleição se aproxima e a cadeira do poder, mais uma vez, é colocada como prêmio maior para o candidato que arrebatar mais votos do eleitorado. Ao vencedor, não as batatas, mas o poder (entenda-se, a chefia do executivo), transitoriamente, ressalte-se.

Nessa luta, o que se observa, ao longo dos séculos, é que alguma coisa há de instigante, ou melhor dizendo, de atraente, para fazer com os homens se transformarem não só em adversários, mas, e, principalmente, em inimigos. É como se, na cadeira do poder, algo fosse ingerido a ponto de, nela sentando, o homem público, ou melhor, o político, se contaminar pelo vírus [do poder, naturalmente] e, sem querer dela mais sair, imediatamente, se tornar do adversário inimigo rancoroso, porque quer lhe tomar a cadeira, chegando ao cúmulo de, na maioria das vezes, nem ao menos se dar ao luxo de uma troca de cumprimentos. Atrás da inimizade, que nasce e cria raízes, está o poder, no desejo de todos de ocupar a cadeira do comando, se possível, por toda a vida.

Quanto mais o fato se distancia da capital, quer ontem, ao tempo da Província, quer depois, com a República, quer hoje, passados tantos anos de experiências vividas por mais de um século de práticas supostamente democráticas, recheadas por alguns períodos de exceção, quando os costumes já deveriam ser outros, mais a inimizade se torna maior e mais a disputa ganha foros de verdadeira guerra. Os tempos passam, mas, no terreno onde a briga pelo poder se manifesta, a paisagem de hoje é a mesma de décadas e décadas atrás. Na busca da conquista, tudo se faz e tudo se justifica para que o poder não saia das mãos de um grupo. O político de hoje age como fazia o de ontem. O comportamento não mudou.

Não é preciso ir muito longe para entender estar o motivo da inimizade a repousar no poder. Ninguém quer perdê-lo, nem dele ser retirado. A democracia representa o rodízio, até mesmo para o grupo não se tornar eterno, e, a alternância se faz necessária, para que o povo experimente cada grupo comandando o poder e faça a sua análise. Mas, na sua disputa, no interior, ontem, como hoje, repito, nada disso funciona. Político algum, dos que conheço e dos que se têm notícias, os de ontem e os de hoje, souberam e sabem de tais princípios básicos. O interessante é ganhar a eleição, seja de que maneira for, a ética escondida em um saco qualquer, e o grupo, na busca da vitória, sendo capaz de tudo, isto é, de qualquer manobra, para galgar a cadeira da vitória.

Neste fim, ontem eram as eleições de bico de pena, as listas de eleitores falsificadas, eleições de mentira, a oposição sem poder freqüentar a sala das sessões eleitorais, os tiroteios que assustavam os que estavam em casa, tirando-lhes o ânimo de votar, os mortos saindo do cemitério para sufragar o nome de alguns candidatos, geralmente do bloco do Governo. Depois seria a paisagem das pessoas detendo três e quatro títulos eleitorais, os mesários sujando as cédulas dos adversários para anulá-las, as urnas sendo trocadas na escuridão da noite, os resultados substituídos por outros números, o cartório eleitoral se utilizando de caneta tinteiro com defeito para o eleitor de partido oposicionista não conseguir assinar o nome, tudo dolosamente premeditado, a fim de dar a vitória um tom de legalidade na tentativa de esconder o vestígio de sujeira. Hoje, os títulos comprados, os títulos e a carteira de identidade, a fim de evitar que o eleitor compareça às urnas, as eleições ganhas sob o impacto da força das malas pretas, superlotadas de dinheiro em moeda corrente, que chegam às vésperas do pleito, para evitar reação do adversário mais forte. Nesse processo, ontem e hoje, muitos magistrados, chamuscados pelo interesse de um grupo, deixaram o nome tão sujo como a lama do chiqueiro de porcos, isentos de qualquer prova concreta, mas, condenados, eternamente, a figurar na crítica que passa de geração em geração como corruptos e capachos de um grupo. Ninguém pense que o esquecimento recai totalmente. Não se prova, mas não se esquece. A história registra. O fato não morre.

Porém, tudo se justifica para levar um grupo ao poder, porque no poder está alguma coisa escondida e atrativa que só os que chegaram por lá conseguem saber e os que não o atingiram desejam tanto atracar no alto da montanha. O sacrifício pessoal, que usam como arma de defesa, é balela, farofa pura. O poder atrai porque há algo nele que não se divulga, talvez seja a princesa nua, e de tão precioso que é, faz com que o homem jogue a moral na lata do lixo, não vendo com bons olhos o amigo de ontem que se torna seu adversário, encarando-o agora como inimigo, preparando-se para fazer qualquer manobra a fim de cercar de insucesso a sua (do adversário) luta pelo poder.

A inimizade, nascida sem um motivo, a não ser o de vestir camisa partidária diferente e oposta, chega ao cúmulo de fazer com que as pessoas da família não queiram, ao menos, pisar na calçada da casa do adversário. Amigos de ontem se tornam inimigos quando os tempos eleitorais se aproximam, evitando-se, convenientemente.

No interior, a rivalidade e o ódio caminham juntos, no mesmo trotar, como se fosse o primeiro sinal para daí, emparelhados, fazer emergir o sangue. Quando o homem veste a camisa de uma facção político-partidária, imediatamente se despe de sentimentos de civilidade, para se tornar inimigo de quem quer que se coloque à sua frente ou não lhe preste apoio. O campo é cheio de exemplos neste sentido, reunindo fatos a reclamar levas e levas de páginas para serem assentados.

Em muitos municípios, não é preciso ir muito longe, a rivalidade política sempre foi marcada por confrontos. A história registra, no império, conservadores e liberais trocando tiros e acusações durante os períodos de eleição. Depois, na República, pebas e cabaús se batendo pelo poder, deixando atrás de cada passo a marca indelével da violência e da fraude eleitoral. Em seguida, udenistas e pessedistas ressuscitaram a velha rivalidade, depois de um período de quase sossego criado pelo Estado Novo. As siglas se alteraram, os homens foram substituídos, o mundo progrediu, mas o ambiente de inimizade perdurou, e, perdura. Os homens se falam e se comunicam, até se tornarem adversários políticos, único detalhe que os tempos não alteraram.

Nesse cenário, eu, que venho dos tempos do PSD e da UDN, vivendo em Itabaiana e tomando conhecimento dos fatos ocorridos em Ribeirópolis, sempre vi, com espanto, em Frei Paulo, o candidato derrotado comparecer a posse do adversário vitorioso. Quando era menino, a paisagem em Frei Paulo era exceção. Não esqueci.

*[email protected]

( Publicado no Correio de Sergipe)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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