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Nesta semana, mais uma vez, a ONU propõe que, no próximo domingo, 21 de setembro, a humanidade celebre um dia internacional de promoção da cultura de paz. É o início da primavera no hemisfério sul e a ONU quer uma nova primavera de paz e de justiça para o mundo todo. Enquanto isso, a Geórgia, instigada pelo governo dos Estados Unidos, continua ameaçando as províncias independentes do sul, ainda ligadas a Moscou. No mesmo tempo, Israel, fortalecido pelos dólares de Bush, ameaça ocupar o Irã. Em reação, países árabes prometem represálias contra Israel e o seu patrão. Na Bolívia, proprietários de 300 mil hectares de terra não querem que o povo aprove a nova constituição que fixa em 10 mil hectares a maior quantidade de terra que um proprietário isolado pode possuir. Diz, então, que a democracia está em risco e faz tudo para derrubar o governo eleito e que mantém 70% de aprovação popular. A ONU, enfraquecida para impedir essas novas guerras, sabe que os líderes religiosos ainda têm um poder moral muito forte e apela para que as religiões contribuam para uma nova cultura de paz.

Uma característica das guerras atuais tem sido a de unir às motivações econômicas e políticas de conquista imperial, um componente religioso de fanatismo. Muitos continuam buscando em Deus justificação para o ódio a outras culturas e religiões. Desde a década de 90, mais da metade das guerras que devastam o planeta tem, em seu bojo, motivos religiosos [2]. As religiões que deveriam ser fermentos de paz acabam inspirando fanatismo, violência e morte. Esta realidade não é nova. Durante a história, muitas vezes, as religiões forneceram pretextos para guerras. Muitos crimes se cometeram em nome de Deus. Mas, é incrível que, em pleno século XXI, Deus continue sendo pretexto de violência e guerras. Se grupos extremistas e governantes fanáticos têm usado motivações religiosas para a sua sanha guerreira, é urgente que as religiões façam desabrochar, do tesouro de suas tradições, o que pode ajudar a humanidade a construir a paz em nome de Deus e dos diversos caminhos espirituais.

De fato, líderes espirituais como o Dalai Lama, papas como João XXIII, pastores como o Reverendo Martin-Luther King e o bispo Desmond Tutu contribuíram muito para se compreender a religião como instrumento de paz. Todos se inspiraram em suas tradições espirituais, seja para lutar contra o racismo, como o reverendo King e o bispo Tutu, seja para pregar a não violência como o Dalai Lama, seja para contribuir com relações internacionais pacíficas, como o papa João XXIII que, em sua época, foi mediador das difíceis relações entre os Estados Unidos e a Rússia. Destes todos, talvez João XXIII tenha sido o que mais se preocupou em mudar a própria forma de compreender e expressar a fé, para que esta veicule a paz e não uma violência simbólica, disfarçada, que, um dia, acaba pegando fogo e justificando ações extremas. O papa da paz insistia: “Podemos expressar a fé de um modo que desconhece e até agride o outro ou podemos expressá-la de forma que une e dialoga. Somos pessoas espirituais quando escolhemos a segunda forma”. De fato, para realizar isso, este papa, movido pelo Espírito, chegou a convocar o Concilio Vaticano II, para reformar a Igreja e para prepará-la melhor à unidade com outras Igrejas e ao diálogo com outras religiões e com toda humanidade.

A partir de iniciativas como esta de João XXIII, amplos setores das Igrejas têm valorizado o diálogo com as outras religiões e procurado formar os cristãos como cidadãos do mundo e construtores da paz.

Uma nova formação espiritual da humanidade exige que, seja em que religião for, ou mesmo sem uma pertença religiosa concreta, as pessoas procurem desenvolver a consciência da responsabilidade por todos os seres vivos. Fazemos parte de uma só família, dividindo a mesma terra e bebendo do mesmo poço.

Um desafio das religiões é rever e aprofundar a própria imagem de Deus, como autor e principio da paz. Muitas religiões e até grupos de Igreja ainda cultivam um deus intransigente e severo que pede sacrifícios e divide os seres humanos em crentes e descrentes, fiéis e infiéis. Este tipo de deus supõe organizações religiosas baseadas no dogmatismo e no autoritarismo de suas hierarquias. Neste caso, esses grupos podem até falar de paz, mas, na prática, plantam sementes de intolerância e divisão entre as pessoas. Como dizia o bispo italiano Tonino Bello que dedicou toda a sua vida ao trabalho pela paz: “A paz não acontece magicamente apenas acabando com todos os conflitos, pois esses são uma realidade da vida. A paz supõe o aprendizado da convivialidade na diferença e da educação da fé, como caminho de amor e abertura aos outros”.

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[1] – MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 32 livros publicados, dos quais “O Espírito vem pelas Águas”, Ed. Rede da Paz e Loyola.

[2] – D JENANE KAREH TAGER, Carte du Monde des Tensions et Conflits. Cit. por MARCELO BARROS, O Sonho da Paz, 2a Ed. Vozes, Petrópolis, 1996, p. 14.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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