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A volta às aulas ou ao trabalho comum do semestre pede de cada um cuidados que vão além da corrida cotidiana do lar ao trabalho e do emprego à casa. Graças a Deus, cada vez mais as pessoas cuidam do corpo. Fazem caminhadas, freqüentam academias de malhação e procuram alimentos mais saudáveis. Entretanto, estes cuidados necessários só dão pleno resultado se a pessoa rever o seu ritmo de vida e, em tudo o que faz, privilegiar uma dimensão mais humana e profunda do seu ser.

No Recife dos anos 70, um padre, acusado de ser pessoa de trato difícil, recebeu um telefonema do arcebispo dom Hélder Câmara que lhe pedia uma audiência. O padre se revelou disponível a qualquer momento que o bispo quisesse. Mas, Dom Hélder esclareceu que não havia pedido a conversa para si. A audiência que o padre deveria dar era a si mesmo. Precisava marcar um diálogo com o seu eu interior. O padre, ofendido, respondeu: “Procuro fazer bem o meu trabalho, mas, na minha vida pessoal, ninguém interfere!” .

Pensar assim é o direito das pessoas, mas nada tem de espiritual. O Espírito Divino nos chama não só a fazer coisas que produzam resultados visíveis, mas a testemunhar algo mais profundo e inefável. De fato, é mais fácil conquistar mil mundos do que chegar ao auto-domínio, conviver melhor com o seu semelhante e, como diziam os antigos espirituais: “habitar consigo próprio”. Quando, em 1969, pela primeira vez, os astronautas chegaram à lua, uma senhora do interior do Maranhão falou: “Parece mais fácil o homem ir à lua do que a gente se dar bem consigo mesma e com as pessoas próximas”.

À primeira vista, uma coisa nada teria a ver com a outra. O fato de que a humanidade tem desenvolvido técnicas impressionantes e pode, em algumas poucas horas, percorrer continentes não impede que cada pessoa cultive o cuidado da interioridade. Somos chamados a descobrir o rosto da divindade, presente em todos os elementos da vida e da história. Tudo está ligado. O importante é a pessoa se tornar capaz de ser verdadeira e fazer com amor os pequenos ritos cotidianos, como lavar o rosto de manhã, assim como as grandes decisões que podem transformar a vida pessoal e o mundo.

A mitologia grega contava que, no início, toda humanidade tinha a luz e o poder da divindade. Mas, Zeus percebeu que os humanos usariam aquela energia para oprimir. E decidiu esconder do ser humano a sua dimensão divina, para que, no dia em que homem fosse capaz de viver dignamente esta divinização, a reencontrasse. O homem percebeu que perdeu aquela força e começou a procurá-la em todo lugar. Foi ao céu e a sua divindade não estava lá. Foi ao mais profundo abismo e não a encontrou. Percorreu todo o universo e não a descobriu porque Deus escondeu a divindade no lugar mais oculto ao ser humano: o seu próprio coração. Por isso, os espirituais e místicos de todas as religiões propõem a peregrinação interior e ensinam que esta exige uma profunda renovação da vida. Algumas correntes psicológicas falam em “terapia do renascimento”. No Evangelho, Jesus chega a dizer que, quem não receber o reino divino como uma criança não pode entrar nele (Cf. Mc 10, 15). Na Idade Média, Mestre Eckhart, teólogo alemão, ensinava que “cada um de nós tem uma dimensão mística”. E esclarecia: “Esse ser místico é a dimensão de criança que existe dentro de cada pessoa”.

Antigas religiões orientais, como os diversos ramos do hinduísmo e do budismo, ensinam exercícios para que as pessoas aprimorem esta busca interior. Quase todas as tradições insistem que, para realizar esta peregrinação interior, é preciso que a pessoa simplifique a sua vida, busque a sobriedade, ame o silêncio e, principalmente, aprofunde a sua capacidade de amar. O próprio Jesus, no Evangelho propôs, como condição para o discipulado, o despojamento pessoal e a disposição de partilhar com o outro tudo o que se tem e o que se vive. A espiritualidade bíblica insiste que o cuidado com a interioridade não pode isolar a pessoa em si mesma. Ao contrário, é para torná-la mais capaz de sair de si e viver a comunhão com os outros. Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, mártir do nazismo, dizia: “Deus está em mim para você e em você, para mim. Ele está em mim, mas eu o encontro melhor em você e, então, você o revela presente em mim, assim como eu o mostro presente e atuante em você”.

Há quem pense na Mística e na Espiritualidade como coisas complicadas e exóticas, acessíveis apenas a pessoas muito especiais. A fé cristã nos assegura que, ao contrário, este caminho se realiza pela graça divina e é totalmente gratuito e democrático. É acessível a todos. Basta querer e aceitar o chamado divino. Vale para nós, hoje, o que Paulo escreveu aos cristãos de sua época: “Vocês não vivem mais sob o domínio dos instintos egoístas (carne), mas sob o Espírito e o próprio Espírito Divino habita em vocês” (Rm 8, 9).

*Monge beneditino, teólogo e escritor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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