Djanira Silva 7 de agosto de 2008

 

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Ah! Eu queria ser sempre assim. Ser, ou estar? Nem sei, pouco importa o verbo, o tempo ou o modo. Gostaria mesmo era de subverter o mundo, mudar tudo, fazer como eu bem quisesse e entendesse. Acordar sem ter que abrir os olhos, levantar pensando que estou deitada, de manhã achar que ainda é noite e no domingo acreditar que é segunda feira. Ai, como eu gostava dos sábados de antigamente, cheios de segredos de surpresas e de um domingo logo depois. Hoje, detesto ambos. Feito gente eles morreram e me deixaram uma herança de amargura.
Ai, como eu queria ser sempre assim dormente e demente esquecida de me lembrar esquecida de viver, freando no meio da ladeira, voltando de ré sem freio e sem destino. E não me digam que não tenho paciência. Paciência para mim é jogo. Arrumo reis, damas e valetes numa seqüência bem comportada, dez, dezena, nove novena, treze, trezena, quatro pontes de safena que se bifurcam, árvores parindo folhas que apodrecem no chão. Não, não me digam que não tenho paciência. Jogo as cartas, misturo os naipes e trapaceio quando posso, para enganar a saudade.
Vivo bem os meus papéis.
Nos carnavais vesti-me de tirolesa, jardineira, dama antiga.
Hoje, compenetrada, visto-me para as representações de cada dia.
Quando nasci esperavam-me camisetas e fraldas para o primeiro papel. Vestidos brancos, marcaram os meus caminhos. Velas acesas, véus e grinaldas, asas de anjos. A vassoura, o avental, as panelas, as colheres de pau, o fogão. Os palcos espalhados por todas os lugares: a sala, a cozinha, o quintal. No quarto, o camarim, onde troco de roupas para cada cena. Visto-me de madame, bolsa combinando com sapatos, anéis pulseiras, brincos, colares. Não tenho nada de verdadeiro. Preciso de tudo isto, o papel exige. O batom desenha no meu rosto uma boca vermelha diferente da minha que é escura, sem contorno, inexpressiva. As tintas escondem o branco dos cabelos, os saltos altos aumentam a estatura de quem por pouco não nasceu anã. Dentro das roupas sou outra pessoa. Olho-me no espelho. Sorrio satisfeita. Dentadura alva, completa. Bem, completa graças ao milagre das próteses.
À noite, depois do banho, vejo escorrer, pelo ralo, toda a minha elegância, o batom, o rouge, o rímel e, para meu desgosto, uma porção de cabelos, mortos pela agressão das tintas. Ai, como eu queria de ser sempre assim, simples, sem máscaras, sem medos.

Obs: Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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