Quem nós éramos? Quem nós somos? E quem nós estamos nos tornando?

“O homem é a medida de todas as coisas (…) ou existe um “Caminho”, uma Verdade e uma “Vida” fora da subjetividade e (pós)modernidade da humanidade?

No ensaio anterior – continuando a presente série onde estamos tentando “rememorar quem nós éramos, saber quem nós somos e compreender quem nós estamos nos tornando”, no atual estágio da humanidade – afirmamos que a condição pós-moderna em que vivemos é fundamentada em quatro pilares fundamentais de existência para a sociedade e para o indivíduo: o relativismo, o liberalismo, o hedonismo e o consumismo.

Desse modo, vimos que, quanto ao relativismo – que se constitui, em si, talvez, o pilar fundamental da condição pós-moderna -, este acabou levando os atores sociais a pensar e estabelecer que não existe mais a “Verdade” a se buscar, o “Caminho” a se percorrer e a “Vida” a se viver. Por ser a “verdade” pós-moderna “polimorfa, ilusiva, íntima e subjetiva” (como assente Ernest Gellner), então, tudo depende do referencial do observador, do sujeito cognoscente (o sujeito que conhece). Se a Ciência, pela Razão, não conseguiu chegar à “Verdade” das coisas em si, é porque “Verdade” não há, muito menos um “Caminho” para se chegar até a mesma. Tudo depende do observador. Como diria Humberto Maturana – idealizador da teoria da Autopoiese e do pensamento sistêmico – “everything said is said by an observer”. Em síntese, como temos afirmado: para o pós-modernismo, o homem é a medida de todas as coisas, das que são e das que não são; não há espaço para Deus no atual estágio da humanidade.

As conseqüências desse terrível relativismo cultural, conceitual e moral são desastrosas para a humanidade em todos os termos, porque, como temos afirmado, se não há “A Verdade”, se não há “O Caminho”, se não há “A Vida”, então, como conseqüência, várias dicotomias são fragilizadas e deixam de ter importância fundamental para o gênero humano. Por exemplo, em assim sendo, não existe bem/mal, verdade/mentira, belo/feio, certo/errado, vício/virtude, comportamento ético/anti-ético, responsabilidade/irresponsabilidade, submissão/rebeldia, e etc…

As aplicações e implicações desse relativismo pós-moderno na nossa vida cotidiana são inúmeras e recorrentes. Por exemplo, o conceito de família. Hoje, já não se sabe o que é uma “família”. Outrora, a família era a base da sociedade, reconhecida assim, jurídica e institucionalmente, e formada pela união de um homem e de uma mulher com potenciais descendentes, os filhos e filhas. Hoje, já não é mais assim. Por quê? Porque o conceito de família se relativizou (conseqüência do pensamento pós-moderno). Do mesmo modo se deu com o conceito de casamento, de honestidade, de sinceridade e de todas as demais virtudes que o homem deveria procurar cultivar em si mesmo e na vida dos seus semelhantes.

Até mesmo no campo do conhecimento científico e filosófico, a pós-modernidade encontrou abrigo e estabeleceu morada. Isso porque, como vimos, a pós-modernidade é uma reação ao projeto audacioso da modernidade da humanidade que pretendeu, a partir da Razão humana e do seu corolário, o Conhecimento Científico, chegar à “Verdade” das coisas. Ocorre que, como não se obteve êxito nesta empreitada, o pensamento pós-moderno estabeleceu, então, que todas as verdades científicas são relativas e contingenciais. De tal modo que, hoje, fala-se que a verdade nada mais é do que uma questão de performance de linguagem, ou seja, todos os nomes, conceitos e teorias que o homem constrói através de métodos e estudos científicos, na verdade, são resultados, não de uma cognição definitiva e objetiva, mas sim de uma convenção, de um acordo intelectual e subjetivo. Em suma: desistimos, cientificamente, da verdade.

O relativismo, assim, tomou corpo, forma e habitou entre nós, dentro de nós. Os filhos, dando um outro exemplo, olham para os pais e dizem: “quem disse que é assim o certo? Isso foi no seu tempo! Esse seu pensamento é careta e retrógrado! Não existe uma verdade, cada um faz o seu, respeitando o do outro.” E assim caminha a humanidade pós-moderna. Não há mais disciplina, ordem, respeito às autoridades constituídas, seja na família, seja na escola, seja no trabalho. O ser humano, na sua esfera individual, não tem mais limites, porque o absoluto não existe, só existe o relativo. Aliás, nesses termos, o homem diria: o absoluto SOU EU. Exatamente o contrário do pensamento cristão que diz que o EU SOU é Deus. O que ocorre é que, como temos dito, na sociedade pós-moderna, não existe mais espaço para Deus.

Mas, continuando a falar dos pilares que fundamentam o pensamento pós-moderno, falemos agora sobre o liberalismo e suas vertentes. Evidente que não vamos nos deter profundamente ao temário. Vamos apontar, tão-somente, para algumas coisas da realidade na qual estamos inseridos.
Pois bem. O liberalismo é um conseqüente lógico do antecedente necessário que é o relativismo cultural, conceitual e moral da sociedade pós-moderna. O liberalismo está para o relativismo como a “Verdade”, o “Caminho” e a “Vida” estão para Cristo (como crêem os cristãos). Ora, se tudo é relativo e depende do referencial, de modo que não existe uma “Verdade”, um “Caminho” e uma “Vida” a serem seguidos, então, é porque somos todos livres para realizarmos as nossas escolhas de acordo com o que cada um de nós entende ser o melhor a ser ou fazer. Se não existem modelos, padrões, paradigmas a serem seguidos, então, eu, livremente, construo o meu padrão, o meu modelo, o meu paradigma. Liberdade total é a palavra de (des)ordem da sociedade pós-moderna.

É por essa razão que o liberalismo pós-moderno prega que as tradições e os códigos de conduta moral, anteriormente, escritos e seguidos, até então, como fundamento da vida humana – como a Bíblia, por exemplo – devem ser deixados de lado, porque, simplesmente, oprimem e denegam a individualidade das pessoas (como se elas, realmente, fossem a medida de todas as coisas). A questão é: como seria a humanidade e as sociedades hoje, se não existissem essas regras de conduta moral?

Do mesmo modo, é o liberalismo pós-moderno que prega que o mercado é quem deve ser o mentor e o motor da história. Não é por outra razão que nos tornamos uma sociedade consumista. Os valores, os princípios e as virtudes morais perdem a vez, nesta sociedade pós-moderna, para as leis do mercado, para o espírito consumista e para as satisfação dos interesses egoístas de cada um dos atores sociais. Isso é tão forte em nós que não nos preocupamos e não nos comovemos mais com as pessoas que passam fome, com a miséria e a pobreza e com toda a sorte de males sociais e econômicos que escravizam os nossos semelhantes.

Preocupamo-nos, diuturnamente, tão-somente, em atingirmos os nossos objetivos e sonhos pessoais, porque a nossa individualidade, reforçada pelo pensamento liberal da pós-modernidade, restringiu ao nosso “EU”, o nosso campo de visão social. O que somos hoje é: seres egoístas que se preocupam, tão-somente, com a satisfação dos nossos interesses, sem olhar e se importar com o próximo. É cada um por si e um tal deus por todos – é o que pensa e vive uma parcela considerável da sociedade. Onde vamos chegar?
Semana que vem, continuamos.

(*) Cristão, Advogado e Professor da UFS
(www.uzielsantana.pro.br)

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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