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CONVIDADA ESPECIAL

Remetendo-se aos propósitos do texto importa inicialmente ressaltar que a grande questão não está em eleger a inserção da sociedade brasileira, com suas contradições e embates para o interior da Universidade Pública ou se decidir pela Educação Superior, desprendida de qualquer conjuntura ou qualquer circunstância. Determinando-se ou não, a sociedade está dentro da Universidade Pública e vice-versa.

Não é demais assinalar, que se precisa abarcar a prática educativa da Universidade Pública dentro de uma fronteira mais ampla. A função social da Universidade Pública adquire particular importância quando por meio dela penetrar-se na conjuntura sócio-econômica e política e cultural, refletindo e dando sinais a qualidade e o compromisso da educação que se pratica. Obviamente, tudo isso estar sujeito as qualidades institucionais e financeiras que a universidade precisa está munida.

A relação Universidade Pública e Assentamentos do MST que se preconiza deriva de um processo educativo em que se articula teoria e prática com base no diálogo. Apostando precisamente na disponibilidade para o diálogo Freire observa: “O sujeito que se abre para o mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História”. (2005, p.136).

Marx se vale da premissa que o homem só muda a si próprio racionalmente mediante a práxis revolucionária. Caso o ser humano se disponha a elaborar um projeto de sociedade, na qual se torne sujeito dessa história, tem de fazer a escolha apropriada da atividade humana e definir o meio de produção adequado à transformação da realidade. Restaura-se, assim, o processo de ação-reflexão-ação capaz de tornar benévola a vida histórica da criatura humana.

Ao afirmar-se que a Universidade Pública deve definir-se pelo seu projeto de sociedade, entende-se que ela precisa realizar uma opção política. E isto significa dizer que, se ela quiser atender aos ditames populares, deverá colocar-se, prioritariamente, contra a exclusão. Para superar os conflitos resultantes do neoliberalismo e da globalização, que a coloca em constante confronto com alunos, professores, funcionários e diversos segmentos da sociedade e por isto a deixa com poucas condições de efetivação de projetos educativos democráticos, ela deverá voltar-se para o viés da educação como uma totalidade concreta.

O debate acerca da Universidade Pública, próxima aos assentamentos, deve refletir sobre seu fazer educativo (ensino, pesquisa e extensão), quanto a qualidade social do mesmo de modo a questionar: para que e para quem está servindo a construção do saber e a relação dele com a determinada realidade, traduzida nas práticas vividas e anunciadas.

O processo educativo na academia ao se atrelar ao mundo do trabalho, passa a demandar a quebra com as concepções de currículo técnico-linear (controle) e circular-consensual (compreensão), elegendo-se o enfoque curricular dinâmico-dialógico (emancipação). Para dar àquele que aprende alcance a história da humanidade de forma interacionista. É nesse contexto que passa a se reconhecer que o desenvolvimento sócio-histórico do sujeito não se dar sem que haja a aprendizagem.

Nos estudos desenvolvidos por Vygotsky sobre desenvolvimento e aprendizagem faz-se surgir o que o mesmo denomina Zona de Desenvolvimento Proximal, definida a partir da existência de dois níveis de desenvolvimento. O primeiro corresponde-se ao desenvolvimento real – capacidade de realização de uma determinada tarefa sem precisar-se de qualquer auxílio externo. O segundo trata-se do desenvolvimento potencial-capacidade de se realizar atividade com a colaboração de “outro”.

Com efeito, considerando-se que a interação com o mundo real decorre dos significados que se categorizaram via as informações advindas das socializações feitas, a formação acadêmica deve favorecer ao estudante a apropriação significativa e multidisciplinar de conteúdos e conceitos que lhe permita situar as contradições e conflitos presentes no cenário institucional, na prática dos assentamentos e na sociedade, para superação da fragmentação do conhecimento, na procura da leitura crítica da realidade e de proposição de projetos de intervenção correspondentes.

Em termos de realidade nacional, ainda tem-se assinalado na mídia que a Universidade Pública está em crise, por falta de financiamento, direção política, identidade, entre outros. Na sociedade brasileira fruto das relações de mercado não se evidencia as posições conquistadas pela Universidade no passado, sequer clarifica-se as posturas que inviabilizem o desenvolvimento progressivo das relações de produção e forças produtivas. Ou seja, nesse modelo econômico a sociabilidade decorrente baseia-se na competição, não se acata prioritariamente os interesses coletivos firmados. A concepção neoliberal inflige que a Universidade deve afastar-se de problemas sociais ou nada ela pode fazer a respeito deles, difundindo a idéia da omissão frente a realidade circundante.

Ao tomar-se em conta a Universidade, como instituição social constituída, na medida em que reflete o conjunto de contradições, obstáculos e desafios gerados pela própria sociedade nas lutas de classe, constitui também um espaço de disputas entre grupos. No que se refere mais concretamente à ruptura do paradigma “Universidade Operacional”, advoga-se que frente a essa situação de crise, urge se fazer nova estratégia de relação da Universidade com a sociedade. Nesta perspectiva de entendimento Fávero se posiciona: […] a Universidade, especialmente pública é chamada a ser palco de discussões, de debate sobre o modo de agir do governo em face das instituições científicas existentes na sociedade. (1992, p.122).

A Universidade mantém uma ação democratizadora ao situar-se criticamente diante da sociedade; deixa de ser efetivamente reprodutora dos valores sociais estabelecidos, para exercer acima de tudo uma função transformadora. Ao propor a formação de cidadãos conscientes e capazes de intervir e participar nos níveis de decisão, a educação é assumida em seu caráter de construtora de sujeitos coletivos.


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¹Poderá ter acesso ao artigo completo visitando o site http://socieduca-inter.org, Grupo de trabalho (GT)10 Movimentos Sociais e a Educação. Além de entrar em contato com publicações de outros autores.

²Professora e Pesquisadora da Universidade de Pernambuco – Brasil. Doutoranda em Educação – Área Inovação Pedagógica, Universidade da Madeira, UMa, Portugal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FÁVERO, Maria de Lourdes A. As Faculdades de Filosofia: subsídios para um debate. In Universidade e Sociedade. São Paulo: ANDES-SN, 1992, pp. 22-30.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 31 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005. .148. p.

Obs: Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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