Abril de 2008.

A educação é uma das maneiras de tornar comum o saber, a idéia, a crença… Tem a ver com a produção, transmissão e reprodução do conhecimento. A educação pode existir imposta por um sistema centralizado de poder que usa a educação como um recurso a mais de dominação. Também pode ser uma construção coletiva, com participação co-responsável das pessoas envolvidas, que usa a educação como instrumento de libertação. A formação política é um processo educativo e significa uma disputa de hegemonia entre grupos que buscam dar a direção da sociedade, no plano político, ideológico e cultural.

Toda formação tem uma intencionalidade, explícita ou oculta, a partir da perspectiva que dá rumo ao conhecimento. A intencionalidade política da educação popular nasce da concepção de mundo e da opção ideológica que sugere uma direção à classe trabalhadora. Por isso, o objetivo da formação política, da educação popular, é qualificar as pessoas da classe oprimida que se dispõem à luta contra a injustiça. Ela serve à estratégia de um grupo de militantes, de determinada ideologia, que luta por transformações no nível político, econômico e cultural. Porque ajuda na elaboração, implantação, acompanhamento e, na permanente avaliação de uma estratégia de poder, essa formação será sempre um ato político.

Numa sociedade de classes, qualquer formação é uma preparação para acomodar-se a um sistema de dominação ou para envolver-se na sua transformação. Nascidas de visões antagônicas, a formação conservadora ou libertadora têm cada qual sua metodologia. Na educação domesticadora, tornar comum significa naturalizar a prática de impor, de forma autoritária ou populista, diferentes pacotes que perpetuam a ordem dominante, onde as pessoas são ensinadas a introjetar e a reproduzir conteúdos e modelos que fortalecem a estrutura de opressão. Na educação libertadora, tornar comum é um caminho que busca incorporar as pessoas como protagonistas e estimula seu potencial silenciado e atrofiado para a construção de uma nova ordem, com pessoas novas.

Muita gente está convencida que só o conhecimento liberta. Muitas vezes, de forma mais ou menos intencional, se reduz o saber à escolarização, à erudição acadêmica, ao um arquivo de informações ou à assimilação de conceitos. O conhecimento pressupõe da-dos, informações e assimilação de conceitos. Se o objetivo do conhecimento é apenas entender o mundo, ele pode ser obtido na escola tradicional. Se o objetivo é conhecer o mundo para transformá-lo, tal conhecimento, além de ser científico, terá que ser experimentado na pratica social. Aí, se comprova se os dados, informações, conceitos, planos e, com eles os “intelectuais”, significam erudição ou conhecimento. Quando colocado a serviço de uma estratégia e dentro um método, o saber pode tornar-se força material que transforma a natureza e a sociedade.

A verdadeira formação será necessariamente crítica a qualquer endoutrinamento ou dogmatismo que treina obedientes seguidistas. É, igualmente, contrária a toda ausência de princípios, ecletismo ou forma de basismo (elogio oportunista a um falso saber popular). A repetição de fórmulas acabadas, de receitas transplantadas ou a aceitação do contraditório senso comum tem produzido imbecis disciplinados que levam ao afundamento qualquer organização. Criticar é um dever. Um educando só seria digno de seu educador se ousasse combater um ponto de vista que lhe parece equivocado.

Evidentemente, a formação deve levar em conta os diversos níveis de consciência e de compromisso e não pode ser ingênua de confundir um princípio com um método. Assim, a defesa intransigente da igualdade entre os seres humanos, sem superiores ou inferiores, não pode desconhecer as diferenças produzidas pela carga genética, pelo ambiente cultural, oportunidades históricas, investimento, esforço pessoal…

Por isso, mesmo sabendo que tudo se relaciona e que não há critérios exatos para demarcar limites, é preciso considerar, pelo menos, quatro níveis de formação: a) a básica – com temas que se referem à identidade, à integração na vida, o ânimo para a luta, os valores… b) a de militantes – o esforço de reconstruir os conceitos enquanto acúmulo da prática social, categoria de análise… c) a de dirigentes – que exercita a capacidade de análise, a elaboração estratégica, a habilidade na condução política… d) a de formadores – que, junto com os conteúdos, inclui o domínio da habilidade pedagógica…

Educação popular é um ato de amor que contribui no despertar da consciência crítica e que desafia os protagonistas a assumirem seu destino, individual e coletivo. Esse ato amoroso se manifesta na entrega solidária, (distinta de piedade, martírio ou técnica utilitarista), na recordação da memória subversiva que alimenta o ânimo da militância e na esperança que as pessoas se desenvolvam, como gente e como povo. Nessa missão, os educadores cultivam valores que se expressam no seu jeito de pensar, de agir e sentir e no amor pelo povo, no companheirismo, no espírito de superação, no espírito de humildade, no espírito de sacrifico e na pedagogia do exemplo. Ao dedicar-se ao processo de qualificação, quem educa também se transforma e se realiza.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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