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Quando você estiver lendo estas linhas, estarei em Vicenza, na Itália, representando a teologia latino-americana em uma festa que se chama Macondo e tem como objetivo incentivar o cuidado solidário dos europeus em relação à África e à América Latina. Para quem não se recorda, Macondo é o nome da cidade imaginária de Gabriel Garcia Marques em “Cem anos de Solidão”. E este nome foi escolhido para significar a solidariedade com o Terceiro Mundo. A festa ocorre anualmente neste período porque a ONU consagra esta semana à solidariedade a todos os povos de territórios vítimas de colonização (Cf. Agenda Latino-americana 2008).

É importante o fato de se falar de solidariedade através de uma festa. Não se trata de estratégia de cooptação ou armadilha para recolher dinheiro. É o próprio espírito da solidariedade como comunhão e alegria do encontro. Festeja-se a diversidade das culturas e a liberdade de se ser diferente e, entretanto, participante da mesma festa que é a vida. Macondo é símbolo do mundo inteiro transformado em uma só cidade de convivência e pluralismo.

No mundo inteiro, existem diversas Macondos e mesmo múltiplas concepções de solidariedade.

1. Existe a solidariedade compreendida como assistência. Os pobres são vistos como indivíduos carentes que precisam de esmola e ajuda. Em determinadas situações, como depois de catástrofes naturais, em casos de epidemia e guerra, esta solidariedade assistencial é necessária. Entretanto, este tipo de solidariedade se contenta em intervir emergencialmente, sem buscar mudanças estruturais e comunitárias. Não se preocupa em compreender as causas da pobreza e combatê-las. Vê os pobres apenas como destinatários da ação social e não como protagonistas e sujeitos de sua própria vida.

A assistência social corre sempre o grave risco de degenerar em assistencialismo e favorecer o coronelismo e a dependência. Nos anos 80, o Iraque era um país próspero e rico, com excelente sistema de educação e saúde. Não se viam mendigos pelas ruas nem pessoas sem moradia. Mas, o país tinha um problema seríssimo. Era construído sobre um imenso lençol subterrâneo de petróleo. Isso fez o governo dos Estados Unidos invadir o Iraque em 1991, dez anos antes do atentado às Torres Gêmeas. Depois do país ter sido destruído, as organizações humanitárias de solidariedade usaram os mesmos aviões de bombardeio para jogar do céu sobre as aldeias em ruínas sacos de arroz, trigo e batatas. Este tipo de solidariedade não contesta a guerra. Só joga comida às vítimas da guerra, depois que esta destruiu tudo. Quando a assistência social se transforma em política pública, traz esta ambigüidade: assegura alguns direitos básicos aos fracos e supre temporariamente carências gritantes. Mas pode ser arma perigosa de manipulação do povo. Especialmente se não se ligar a práticas de autogestão e organização dos setores populares.

2. Um outro modelo de solidariedade é, em geral, vivido pelos organismos de voluntariado. Aí a solidariedade é vista como o encontro com o diferente e diálogo de culturas. Um rapaz ou moça da Europa que se engaja nos Médicos sem Fronteira, ou nas Caravanas de Paz ou em qualquer outro tipo de trabalho de solidariedade não vê o pobre como um coitadinho que precisa de ajuda. Ao contrário, sabem que eles, voluntários, é que são ajudados no contato com os empobrecidos do mundo. Têm a consciência de que o pobre é sempre um outro com personalidade e história. A única solidariedade eficaz é a que lhe faz protagonista de sua própria vida.

A solidariedade não é apenas a ajuda social ou econômica que se dá aos pobres. Isso é necessário. Todas as religiões incluem a esmola em seus mandamentos básicos. Mas, a solidariedade é mais do que isso. É corresponsabilidade amorosa entre pessoas e comunidades, como entre povos e nações, em função da justiça e da fraternidade entre os seres humanos. Daí decorre o terceiro tipo de compreensão de Solidariedade.

3. A Solidariedade significa unir-se e se organizar no compromisso de libertação de todos os tipos de opressão. Não adianta ajudar o pobre se não se busca transformar o modelo sócio-político que provoca e agrava as condições de pobreza. Como dizia Paulo Freire: “só o pobre liberta o pobre”. A solidariedade é possibilitar que se viva esta vocação da liberdade. Para os cristãos, solidariedade é a tradução mais correta e atual do termo caridade ou amor fiel que Jesus nos deu como mandamento novo quando disse: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amo vocês” (Jo 13, 34).

*Monge beneditino, teólogo e escritor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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