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Nesta semana em que a ONU celebra o dia da saúde (07 de abril), a Organização Mundial da Saúde divulga que, no Brasil, enfermidades vencidas há mais de 50 anos, como a febre amarela, ou controladas como a dengue, voltam com toda força e, em lugares como o Centro-oeste e no Rio de Janeiro, ameaçam se tornar epidemias. Entretanto, não se trata só do risco de epidemia da dengue ou da febre amarela. A questão mais ampla é saber qual o grau de importância que os governos (federal e estaduais) dão à saúde do povo. Enquanto no Rio de Janeiro, o exército monta tendas improvisadas para atender aos doentes de dengue, a população do estado de Goiás acompanhou com tristeza a demissão do secretário de saúde. Há poucos dias, os jornais noticiavam que, com dificuldade, ele havia conseguido para este ano a verba de R$ 14 milhões, quando o mínimo necessário para enfrentar a crise dos hospitais públicos e do atendimento básico seriam R$ 22 milhões. Os jornais lembraram que os 14 milhões representam um índice inferior à cota prevista na Constituição Federal para a saúde. Esta irregularidade foi publicada pela imprensa e nada mudou.

Em todo o Brasil, a precariedade do sistema de saúde obriga as pessoas com as mínimas condições econômicas a depender de planos particulares de saúde. Esta alternativa é justa, mas tem um aspecto lamentável: não favorece uma luta comum pela saúde como direito de todos. Em todo o país, o que se vê é um sistema sucateado de saúde publica. Enquanto os que podem, recorrem a planos privados, os hospitais públicos continuam superlotados, quando não fechados. Os médicos que atendem ao SUS se estão insatisfeitos com as condições de trabalho. E os pacientes, principais vítimas, gemem, amontoados pelos corredores, a esperar como favor ou até privilégio o atendimento que, por justiça, seria direito fundamental de todos. Infelizmente, o fato de termos no país 118 faculdades de medicina não promete nenhuma mudança no sistema, pois muitas destas escolas formam profissionais preocupados apenas com sua renda pessoal e não com o compromisso ético de servir à saúde do povo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como “estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Se a saúde é este equilíbrio tão perfeito, somos todos doentes, já que, de alguma dor, limitação, fragilidade ou agruras da idade, de um modo ou de outro, sempre se sofre. O que podemos garantir é um conjunto de medidas que evitem doenças e possam proporcionar uma melhor qualidade de vida a todos. Esta saúde preventiva é hoje pensada em pesquisas com o DNA, mas pode ser mais básica e acessível a todos. Trata-se de cuidar da saúde da terra, da água e do ar. Como se falar em direito universal à saúde em um mundo no qual, conforme a OMS, diariamente morrem milhares de crianças, vitimadas por doenças provocadas por falta de saneamento básico. 80% das doenças no mundo ainda estão ligadas ao uso de água imprópria para consumo humano. Um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável limpa e dois bilhões não contam com condições básicas de higiene e saneamento. Neste contexto de mundo, como dizer que saúde é direito humano de todos?

É claro que a saúde preventiva se alicerça em uma educação que dê a todos as condições para evitar doenças como a dengue, que depende de água estagnada e de ambientes propícios para o desenvolvimento do mosquito que a transmite. O Ministério da Saúde elaborou uma cartilha a ser distribuída nas escolas e conta com as crianças e jovens para o êxito da campanha nacional contra os focos, nos quais o mosquito se aloja. Entretanto, a educação para a saúde deve abranger a formação de uma cultura do respeito ao outro e do cuidado com a natureza e com todos os seres vivos.

Já que não contamos com um adequado sistema público de saúde, em todo o país se multiplicam grupos de saúde popular que resgatam elementos da sabedoria ancestral das comunidades e pesquisam a flora da região para atender às necessidades de saúde das pessoas. Este sistema de saúde alternativo investe no cuidado preventivo com a alimentação, com a higiene e com hábitos saudáveis, elementos indispensáveis para se garantir condições adequadas de saúde. Os agentes deste serviço são pessoas ligadas à espiritualidade (cristã ou das religiões afrodescendentes) e sabem que existe uma íntima relação entre a busca da saúde e o que as religiões chamam de “salvação”. Como recorda Roberto Cremma, entre sanidade e santidade, a única diferença é um t. Assim como a saúde, a santidade consiste na busca da integridade e da unificação interior, como resposta ao amor divino e se expressa no cuidado com o outro (humano e todo ser vivo).

Em várias línguas, cuidado significa cura. Todo mundo tem alguma experiência de curar e também de ser curado. Só o ser humano pode assumir o cuidado do outro e pode curar e ser curado. Conforme a parábola bíblica, ao nos criar, Deus teria dito: “Não é bom que homem seja só”. (Gn 2, 18). Então, a humanidade nasceu sob o signo da ajuda recíproca. O cuidado com a saúde e com a vida tem origem divina e é vocação de todo ser humano para que seja plenamente humano.

* Monge beneditino, teólogo e escritor.

Obs: Imagem enviada pelo autor – ilustração de Pulika.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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