Saulo Marden 1 de março de 2008

.Tudo tem um motivo de ser. Nada acontece por acaso.

O céu em poucos minutos escurecera. As estrelas brilharam na falsa noite quando o sol permitiu a lua lhe fazer sombra; ciência para uns, sinal de agouro para outros. Naquele momento, chegaram notícias sobre Perpétua: “Pai, não entendo Deus. Onde Ele está numa hora desta? Se ela morrer eu nunca O perdoarei.” “Lúcio, entender os nossos semelhantes já é difícil, imagine as coisas Divinas. Meu filho, você é jovem, tem muito que aprender. Não as questione. Tudo tem um motivo de ser. Nada acontece por acaso.” Enfurecido saiu da sala resmungando, respirando ódio. Nunca aceitava sem antes questionar até entender as explicações. Depois as defendia quaisquer que fossem as conseqüências.

No dia seguinte foi visitá-la. Na porta da sala parou para observá-la. Sentada na cadeira de rodas, junto da janela, ela se distraia. Observava os pardais na alegria da liberdade a pular de galho em galho. Enquanto isso, a doença interferia nas horas, nos minutos, nos segundos tornando-os mais velozes, mais preciosos – o tempo espremido. As forças do vigor da vida pareciam minguar: rosto pálido, olhos envoltos por anéis escuros, lábios secos. Ainda assim não perdera a beleza.
Aproximou-se com as mãos para trás. Trazia-lhe rosas amarelas. “Você acertou, são as minhas preferidas.” Ela o agradeceu com um beijo e uma proposta: “Quer namorar comigo? ” A afirmação foi um beijo. Empurrando a cadeira de rodas a conduziu ao jardim. “Antes de adoecer aguava as plantas todos os dias. Gosto do cheiro de rosas, de terra úmida, de estrume. Eles lembram a renovação da vida. Eu quero me curar… Eu quero viver…” Ao se curvar mais uma vez para beijá-la viu seus olhos cheios de lágrimas. O sol da manhã estava quente, mas Perpétua estava com os lábios e as mãos frias. Tomado por um desespero a razão lhe abandonou. ‘Preciso sair daqui o mais rápido possível.’ Ela continuava falando sem que ele a respondesse. A voz perdia a entonação, ficava cada vez menos nítida até que tudo voltou ao normal: “Me desculpe. Pensava no trabalho que tenho de terminar ainda hoje. Perpétua, preciso ir. Amanhã voltarei, está bem? “Obrigada, Lúcio. Você me deixou feliz. Não vai sair sem me dar um beijo, vai?” ” De jeito nenhum.”

Concluir o curso de medicina tornara-se uma obsessão Poucas horas ficava com Perpétua e os pais. O resto do dia e a noite dedicava-se aos livros. Quanto mais estudava mais vontade tinha. Problema difícil, sinônimo desafio. Um campo aberto para a intromissão do cansaço, do stress. Precisava diminuir o ritmo.

Certa noite, quando o carrilhão bateu doze vezes, sentiu um calafrio acompanhado de um aperto no coração. Lembrou-se de Perpétua. ‘Será que dorme tranqüila ou estará acordada cheia de dores? Paciência, em breve você ficará boa. Aparecerá um modo de curá-la. Se não for Deus, será um mortal que tornará seus dias mais confortáveis, mais cheios de vida. Para isto, resista. Não se entregue. Não se deixe levar pelo desespero. Encontre armas na fraqueza. Lute em defesa da vida. Pense em quanto ainda tem para desfrutar e perpetuar sua existência.’

No dia seguinte, antes de passar na casa dos pais como de costume, foi vê-la. Continuava na mesma. Momentos melhores, momentos piores. Sentia-se impotente em não saber devolver-lhe a saúde. Limitava-se a propiciar-lhe um pouco de felicidade.

Quando chegou no período de atendimento aos pacientes, como estudante estagiário, lembrou-se do que prometera a si mesmo- casos complicados; desafios assumidos. Muitas das vezes vinham premonições. Diagnosticava contrário ao que os resultados dos exames indicavam. Sem comprometer os pacientes, curou alguns. Estava declarada a guerra contra a morte. Alimentava-se de amor e paixão. Deles fazia uso em todas as oportunidades para devolver a saúde e a felicidade de quem a perdera. Foram várias as derrotas. Mas, não media esforços para fazer o melhor. Deus continuava inabalável, soberano. No entanto, ele não O esquecia. Nos momentos de aflição, O invocava. Os necessitados acima de tudo. Certa noite, ao perder um paciente, lembrou-se que poderia ser Perpétua e a razão se foi. ‘Se tem o poder da cura, por que permite a morte?’ Saiu do hospital para casa pela Avenida Beira Mar. Precisava refrescar a mente. A maré baixa permitia-lhe caminhar sem sapatos. A areia úmida massageava os pés, diminuía as tensões. O sol estava vindo. Pouco a pouco o escuro da noite cedia à rubra, ao ouro da luz. Luz que vinha com força, com brilho de um verão sem nuvens. Desviar os olhos daquele esplendor tornou-se difícil. Atordoado, com as mãos nos olhos, ajoelhou-se e ouviu uma voz,: ‘Lúcio, Lúcio, o que queres provar? Por que me desafias? A dúvida traz derrota. Não te preocupes em fazer mais do que podes. Eu estarei presente quando precisares de mim.’ Minutos depois outras vozes castigaram o silêncio despertando-o.

Antes de entrar em casa lembrou-se das palavras que soaram vivas num tom grave e melodioso. Tomou um banho e voltou ao trabalho. Pela primeira vez sentia-se disperso, vazio. Pensou em ver Perpétua. Desistiu. Sem saber o que fazer, desabafou: ‘Ah! Isto é um resfriado besta. Vou para casa, amanhã estarei curado.’

O sol da manhã seguinte veio limpo a iluminar tudo que seus raios tocavam. Sentindo-se mais animado, foi visitar o pai antes para depois ver Perpétua. “Lúcio, você já soube?” “Não! Não me diga…”. De cabeça baixa se preparou para escutar o massacre das palavras que corroem o corpo e a alma: O pai apenas lhe disse: “Pelo menos deixou de sofrer. Soubemos há pouco.” “Logo hoje que não fui vê-la. Por que meu Deus? Por que tirar uma vida tão cedo?.”

Deixou a sala sem levantar a vista. Estava desiludido, ofendido. Queria vê-la, segurar-lhe a mão. Com isso, quem sabe ela não ganharia um pouco de segurança na viagem sem volta. O sangue fervia, formigava o corpo permitindo o ódio incendiar a alma. Sem se conter desabafou: ‘Se é tão poderoso como dizem por que não ajuda os necessitados? Por que agir assim? Eu me preocupo com os meus semelhantes. Dedicar-me-ei ainda mais à medicina para Lhe provar que sou humano, que tenho compaixão.’

Na manhã seguinte veio o arrependimento: ‘Ontem estava necessitado, no entanto, a lembrança da Sua luz, da Sua voz, da Sua palavra, me trouxe fé. Ela reforça o meu compromisso com o próximo. Queria poder agradecer-Lhe pelo que me foi permitido fazer até agora. Suplicar-Lhe-ei sempre me acompanhar na incansável busca de levar saúde, felicidade e amor ao próximo.’

Obs.: Este conto serviu de base para a inclusão do personagem Lucas no livro “Conto dos Contos”
( [email protected])

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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