Ex-Director do INETI ¹ (Coimbra)
Escritor ([email protected])

O dia-a-dia encarrega-se de nos trazer o mal que por aí vai no que se refere ao ensino. Sucedem-se diplomas legislativos, quiproquós interpretativos dos deveres e direitos de professores e alunos, de pais e encarregados de educação, de conselhos directivos, de associações académicas e de reitorias, de uma Ministra da Educação aparentemente calma mas cheia de inquietude, de um Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que sabe mas não confessa as mágoas e de um Primeiro-Ministro que tenta convencer-nos que, agora, estamos no bom caminho. Quando na década de noventa andei metido em andanças relacionadas com o ensino profissional, Portugal era um dos países da OCDE com pior ensino. Os indicadores à época apontavam para um desfasamento nunca passível de recuperar em menos de vinte anos, caso mudássemos de comportamento e fizéssemos um esforço, inteligentemente orientado, para nos aproximarmos da linha da frente. No que toca à via profissionalizante, os indicadores ainda eram mais desfavoráveis do que os do ensino geral, facto que se reflectia directamente no nosso sistema produtivo. Naquele tempo, nos países da frente, a maior parte da mão-de-obra de base das indústrias era já altamente qualificada tendo, por média, diplomas e carteiras profissionais equivalentes ao 12ª ano do ensino secundário ou ao primeiro ciclo do ensino universitário (níveis três e quatro).

Passaram-se catorze anos, e Portugal encontra-se metido num atoleiro, perante o qual, até um optimista tem dificuldade de vislumbrar solução. Não admira, por isso, que o Primeiro-Ministro, numa declaração aparentemente angustiante, dê mostras de querer centrar o esforço do governo no apoio à ciência e tecnologia e à via profissionalizante. Deseja evitar a saída dos cientistas que fogem de um país indiferente ao dia de amanhã e que vive, a crédito, daquilo que não produz. É certo que há por aí hiper-ricos, feitos à custa da bolsa e de vias pouco hialinas, cuja riqueza não contribui para o desenvolvimento e bem-estar da sociedade. Contudo, como promover este ensino, a certificação profissional e a certificação estatal para ombrear com a qualificação dos quadros dos países da linha da frente? Ensinando os três principais vectores da profissionalização (os fundamentos do conhecimento, o saber fazer e o saber estar), tarefa difícil que exige infraestruturas bem equipadas (centros de informática, ateliers, oficinas, laboratórios e outras), corpos docentes com experiência e acordos com os parceiros sociais.

Nas escolas do ensino secundário, os laboratórios não existem ou são fantasmáticos, facto que também ocorre em alguns politécnicos e universidades. Muita gente do meu tempo tomou o gosto pela ciência, pela simples razão de ter conhecido, nas aulas práticas de Ciências Naturais, de Físico-Química e, mais recentemente, de Técnicas Laboratoriais, o prazer da experimentação. Mas, se o ensino geral vai mal, o ensino profissional continua muito pior. Em Portugal, o ensino está descapitalizado, vivendo na sua maioria de papel, de lápis e, eventualmente, de uns quantos computadores. Mas isto é uma mistificação! É preciso levar a escola às empresas, levar as empresas à escola e aproveitar unidades do subsistema tecnológico, também elas subaproveitadas (centros tecnológicos, centros de controlo de qualidade, unidades de demonstração, escolas tecnológicas, etc.). É preciso mobilizar o patronato e os sindicatos para que, conjuntamente com o governo (qualquer que ele seja) se dê a volta por cima. É indispensável que, do ponto de vista político, se assuma a responsabilidade de desfazer o equívoco interiorizado pela sociedade que liga o ensino profissional aos menos aptos, intelectualmente falando, quando o grande mérito da via profissionalizante assenta no facto de um estudante poder, ao longo da sua carreira, ir obtendo carteiras profissionais que não só o colocariam no mercado de trabalho da CE, com aptidões certificadas, mas também o levariam ao ensino superior, se esse fosse o seu desejo, podendo chegar à licenciatura ou mesmo a graus académicos superiores. Portugal já esbanjou exorbitantes verbas do FEDER e do FSE, muito em especial no que se refere aos programas PEDIP, POE/PRIME, PRODEP e POEFDS sem o devido retorno em termos de aproveitamento, e corre o risco de se tornar no país da CE mais improdutivo. Acordem por favor, e cada um dos intervenientes deixe de olhar só para os outros e passe a olhar, também, para aquilo que devia ter feito e não fez. A última oportunidade está a esgotar-se e não é com “políticas de cosmética”, com desacertos entre ministérios (“Ensino Superior, Ciência e Tecnologia”, “Educação”, “Economia e Inovação” e “Trabalho e Solidariedade Social”) cada um a puxar a brasa à sua sardinha, nem tão pouco com “encolhas” ou com “Xicos-espertos” que se resolve o futuro deste país. É tempo de o Primeiro-Ministro pôr ordem na casa, com vistas a uma gestão concertada do muito que existe disperso por este país e dar rumo adequado à via profissionalizante.

(Publicado no Diário de Coimbra de 11 de Janeiro 2008)

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1- INETI – Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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