Paulo Rebêlo 15 de março de 2008

([email protected])

Quem mora sozinho sempre escuta barulhos estranhos e presencia situações inusitadas. E não sobra uma alma viva para lançar aquele olhar de surpresa. É comum, no meio da madrugada, ouvir uma martelada vinda do andar superior e ficar imaginando hipóteses das mais extravagantes. Mesmo assim, fenômenos domésticos, apesar de esdrúxulos, normalmente não geram dores de cabeça para descobrir as causas. Quando é briga de casal, no outro dia todo o condomínio inteiro já sabe…

Certas situações são corriqueiras: acordar no meio da noite com cheiro de queimado no ar e só então lembrar que esqueceu o forno ligado. Era uma vez o jantar requentado de duas semanas atrás.

O que nunca imaginei que aconteceria era aparecer uma pena no meio da sala, sem qualquer explicação plausível. Vizinhos não criam pássaros ou outros animais “penosos”. De repente, acordo com uma pena próxima da cama. Jogo no lixo. Dia seguinte, outra pena, agora na sala.

Não considerei um fenômeno doméstico. Deixei a pena lá na sala mesmo, pois ainda faltavam dois meses para a limpeza trimestral do recinto e eu não estava disposto a antecipar o pagamento da faxineira! Durante vários dias, segui meu cotidiano, sem conseguir tirar da cabeça aquela pena misteriosa.
Tudo ficou mais estranho quando, num sábado qualquer, resolvi terminar de ler outro livro inútil no meu minúsculo terraço e me deparei com mais duas penas. Não era possível. Será que a casa estava tão suja a ponto de virar cativeiro de uma nova safra de urubu transgênico, uma espécie de urubu albino?

Naquele sábado, resolvi movimentar um pouco meus neurônios estacionados e fui refletir sobre o urubu branco com minha loira gostosa predileta: a Brahma, lá no botequim da esquina, com o Carranca – o único garçom recifense que se orgulha de ostentar o título de garçom mais feio do Recife. Ele guarda até uma placa com o título, conquistado há algumas décadas.

Refletindo com a loira sobre as penas misteriosas, não cheguei à conclusão alguma. Mas cheguei em casa somente na manhã do domingo, naquele estado deplorável… E então, com os olhos entreabertos por causa do sol, ligeiramente tonto, achei que estava tendo uma miragem, uma visão, um delírio alcoólico: encontrei um pombo passeando na sala, como se a casa fosse dele e não minha!

O soltador de penas. Matei a charada; foi sem querer, mas é detalhe. O que um pombo vem fazer exatamente na minha casa, às seis horas da manhã? Meus neurônios ressacados em slow-motion concluíram que eu nunca o encontrei pois ele só faz visitas bem cedo pela manhã. Gênio, gênio…

Domingo. Ressaca. Fome. Geladeira vazia, como de praxe. Aquele pombo não sabia o perigo que estava correndo, andando na minha frente, todo gordinho e branquinho. Suculento, eu diria. E ainda por cima eu naquele estado, sem ter muita noção de minhas atitudes movidas pelo álc… digo, pelo estômago. Sorte dele que o fósforo havia acabado (há uma semana…) e, na época, o microondas estava quebrado. Seria um banquete, ah seria.

Sentei no chão. Observei. O pombo estava ali, em plena sala. Não tinha medo, não parecia estar com receio de ir para a panela. Ficou para lá, para cá… para lá, para cá… para lá, para cá… para lá, para cá… entrou no quarto, rodou, rodou… entrou na cozinha, rodou, rodou… voltou para a sala, rodou, rodou… foi para o terraço e ficou lá usufruindo da belíssima paisagem do alto do meu terceiro andar.

“Estou sonhando”, pensei. É demais para minha sã, porém tonta, consciência. Pareceu que ele conhecia o ambiente na palma da mão. Daqui a pouco vai se considerar o dono da casa; e eu, a visita. O pombo voou e foi embora, mas não sem antes deixar cair uma outra pena no terraço.

O fato é que, nos dias seguintes, fiz questão de acordar bem cedo e ficar estarrecido com a presença rotineira do pombo, que agora já fazia parte da ornamentação do apartamento. Era só o que faltava, um pombo de estimação! Bom, pelo menos seria um bicho de estimação parecido com o dono: ele sempre deixava cair uma pena; eu sempre deixo vários fios de cabelos (os que ainda restam) por onde passo.

Mistério decifrado, observei que o pombo cessou com as visitas. Até consegui acordar cedo durante semanas, mas o pombo sumiu. Com um peso na consciência pouco característico à minha pessoa, resolvi tomar uma atitude ainda menos característica: uma boa ação animal. Enchi um pote com milho e deixei no terraço.
Dia seguinte, o pote estava vazio. E, mais tarde, lá estava ele, perambulando pela sala, pelo quarto, sujando tudo e deixando uma pena de vez em quando. O danado ia terminar se acostumando. Pior, poderia trazer a família inteira… seria muita responsabilidade.

Não obstante o meu receio em relação ao pombo-giro, resolvi adotar. Meu primeiro bichinho de estimação. Não trouxe a família. Ele é mesmo parecido com o “dono”, mais um eremita sem rumo.

Nós dois fizemos uma aposta. Quero ver quem fica careca primeiro: eu ou ele. Se ele ganhar, eu providencio uma pomba branquinha e fofinha para ele e batizo ela de Sandy. Se eu ganhar? Ele vira pombo-correio leva um bilhete para a vizinha peituda lá do sexto andar.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços
[slickr-flickr type=slideshow]