E o novenário da festa do Passé

A festa de S. Sebastião do Passé foi esplendorosa. Tudo foi preparado por um novenário que se prolongava pela noite a dentro. O vigário, Pe. Paulo Roberto , de inspiração carismática, elaborou uma liturgia entremeada com cânticos, preces e muita participação popular.

Estive na última noite da novena que teve a pregação feita pelo Pe. Jerônimo Santos Silva, vigário da Paróquia do Senhor Bom Jesus dos Milagres em Matatu de Brotas e que já foi vigário no Passé, substituindo o Pe. Mateus, quando este último se “desencompatibilizou”da função para poder ser candidato a Prefeito ( como está sendo novamente este ano). O tema versou sobre os desafios políticos contidos no Documento de Aparecida, Conferência presidida pelo Papa Bento XVI quando aqui esteve em maio último.

O Documento tem cinco momentos centrais: 1° – O ponto de partida: uma realidade que nos interpela, pois contradiz o reino da Vida;2° – O ponto de chegada : a vida em plenitude para a pessoa inteira e para nossos povos;3° – A exigência: Uma Igreja em estado permanente de missão; 4° – A conversão pastoral e a renovação eclesial; 5° – O itinerário – Uma caminhada em quatro etapas, à luz da opção preferencial pelos pobres. Esse último capítulo contem um item intitulado : Compromisso missionário da comunidade, que é desdobrado num sub-capítulo que iluminou o tema da pregação do novenário citado acima e que trata da “Vida Pública” .

Essa Conferência do episcopado Latino-Americano e do Caribe, é continuadora das Conferências de Medellín e Puebla. O Concílio Vaticano II quis ser uma porta aberta ao diálogo com o mundo hodierno. Há uma Constituição especial intitulada Lúmen Gentium em que a Igreja pensa em si, no patrimônio da fé cristã e como exprimir essa fé aos seus contemporâneos.Há uma outra Constituição chamada de Gaudium et Spes em que a Igreja reflete as suas relações com o mundo cristão, com os não-cristão e com o mundo sem fé, com todas as implicações, sobretudo as políticas, visando a construção de um mundo melhor. Essas Conferências latino-americanas querem ser uma aplicação concreta e direta do espírito desse Documento.Por isso mesmo, o texto de Aparecida constata como fato positivo na nossa região, o fortalecimento dos regimes democráticos com a busca de uma democracia participativa e com a integração da sociedade civil. Mas constata com tristeza um aspecto negativo que é “o recrudescimento da corrupção na sociedade e no Estado, que envolve os poderes legislativo, executivo e judiciário, gerando impunidade e o descrédito do povo. Em decorrência disso, sobretudo entre os jovens, cresce o desencanto pela política e, particularmente, pela democracia”.

O Pe. Jerônimo sublinhou na sua pregação esses valores, até com uma certa veemência , destacando do Documento os momentos em que chama os discípulos e missionários de Cristo a iluminar com a luz do Evangelho, todos os âmbitos da vida social . Diz o texto que “se muitas das estruturas atuais geram pobreza, em parte é devida à falta de fidelidade a compromissos evangélicos de muitos cristãos com especiais responsabilidades políticas, econômicas e culturais” . Ainda foi lembrado do texto, pelo pregador, aquela tendência a afastar a Igreja “para os templos e para os serviços religiosos” – isso é fruto de um laicismo exacerbado que prefere a religião como algo alienado e confinado às sacristias. Mas o Documento lembra que os batizados têm a missão de serem “fermento na massa” para a construção de uma sociedade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus : “Que os discípulos e missionários de Cristo se empenhem nos âmbitos da política, da economia e nos centros de decisões (…) para a construção de uma sociedade mais justa”. Foi ressaltado que o leigo cristão tem essa missão precípua, a do compromisso político e para tanto deve se preparar para o exercício do poder, “especialmente quando são chamados a tais encargos pela confiança dos cidadãos, segundo as regras democráticas. Eles devem apreciar o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno”.

A novidade da pregação do Pe. Jerônimo é que, ao lado do sublinhar a vocação do cristão leigo para o cenário político, destacou a importância da presença do padre nesses momentos, “toda vez que se fizer necessário”, enfatizou o pregador. De fato, sabemos que não é todo padre que tem habilidade para o jogo político, como nem todo professor, nem todo operário, nem todo médico. Mas aqueles que se sentem chamados a essa missão, com toda consciência, devem fazê-lo, não visando o próprio bem, mas o bem comum, o bem público, destacou o pregador. É inerente à própria vocação sacerdotal esse devotamento à causa pública, não ser permeável à corrupção e visar sempre uma política que responda às necessidades dos mais pobres, “quer agrade, quer desagrade”, como diz S. Paulo nas suas epístolas.

Lembrando o apelo dos discípulos de Emaús, – “Ficai conosco Senhor” – a Conferência de Aparecida fez um apelo:”Ficai conosco, Senhor, com aqueles que em nossas sociedades são mais vulneráveis; ficai com os pobres, com os indígenas e com os afro-americanos, que nem sempre encontram espaço e apoio para expressar a riqueza de sua cultura e a sabedoria de sua identidade. Ficai com nossas crianças e com nossos jovens, que são a esperança do nosso Continente e protegei-os de tantas insídias que atentam contra as suas legítimas esperanças”.

Professor da Uneb, da Cairu, da Faculdade 2 de Julho. Membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris, da Associação Nacional de Interpretação do Patrimônio – ANIP,Br. Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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