Djanira Silva 28 de fevereiro de 2008

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O homem, este ser inteligente que se diz racional, independente e livre, passa a vida inteira escravizado. É escravo dos horários, das leis, dos vícios e, sem se aperceber, das festas, que na maior parte do ano o mantém em alerta, obedecendo às exigências do consumismo.
Janeiro abre o calendário da obediência. É um tanto parecido com as segundas-feiras, insosso e sem graça. É um mês cheio de obrigações que começam com os carnês do IPTU, seguidos das listas de livros didáticos, dos fardamentos, das taxas extras de material escolar. Começa o corre-corre atrás dos recibos do Imposto de Renda e as ginásticas para pagar as contas quilométricas dos cartões de crédito usados sem limites nas compras de fim de ano. Antes de terminar o mês, as emissoras de rádio e televisão começam a anunciar o carnaval que se aproxima. O homem, inteligente e racional, recebe a ordem de pular, dançar, soltar a franga ou seja lá que bicho for e comprar, comprar, comprar. É uma festa sem preconceitos e a maioria das pessoas nem lembra que tem família e obrigações e quando termina é tempo de tratar das mazelas deixadas pelo reinado de Momo. São namoros desfeitos, casamentos arranjados e desarranjados, pernas quebradas, unhas esfoladas, empregos comprometidos. Tudo por conta do raciocício de um ser que se esquece do seu lado verdadeiro – o animal aquele de cujas funções precisa para sobreviver.
Em maio, novo comando: festejar o dia das mães. As lojas enchem-se de filhos amorosos que esperam num só dia anular as grosserias de um ano inteiro. Vão às compras. a maioria das pessoas adora comprar, principalmente as que vivem encalacradas de dívidas, penduradas nos cartões e compram e compram, sem se darem contas de que cada vez ficam mais pobre, e os do lado de lá ficam mais ricos.
Junho cheira a fumaça, tem som de bombas e foguetões, gosto de canjica, pamonha e milho verde. O dinheiro se incendeia em dois minutos nos fogos de artifícios que representam mais uma das insanidades do ser humano. E o comércio? Vai muito bem, obrigado é quem se curva aos apelos das propagandas.
Em agosto, há um movimentozinho meio sem graça, é dia dos pais. Eles são menos piegas do que as mães. Não fazem muita questão de serem festejados. Muitos, às vezes, nem estão mais vivendo com os filhos. E muitos filhos nem sabem se têm pai. Coisas da vida, coisas do ser humano, racional e pensante.
Setembro, além de ser tempo de sol, também é tempo de comprar biquinis, maios, calções, cadeiras de praia. Alugar casa de veraneio e continuar pendurado em empréstimos bancários para fazer figura diante dos amigos. Quem tem dinheiro veraneia a qualquer hora.
Todos têm seu dia, até as sogras só que ninguém se lembra de presenteá-las. As avós também, são um tanto esquecidas. Os comerciantes ainda não encontraram um jeito de estimular os consumidores.
Chega outubro, dia das crianças, dos professores, dos comerciários, e não sei mais de quem. Apenas o dia das crianças volta a colocar em movimento o comércio. Em novembro vendem-se flores e velas. Defunto também tem seu dia. E, finalmente, chega novembro. O que novembro tem a ver com o comércio? Ora, tem tudo, o décimo terceiro é antecipado e é quando vem a célebre frase dos economistas – O DÉCIMO AQUECE O COMÉRCIO, e com antecipação começam-se os gastos para dezembro. O Aniversariante do mês, só é lembrando na cantiga Noite Feliz. Papai Noel com seu saco cheio de compras, tornou-se mais importante, e mais conhecido do que Jesus. Ninguém se lembra de rezar pelo menos um Pai Nosso. Agora, quando passam as festas, haja orações e promessas para se conseguir um jeito de pagar as contas contraídas.

Então, chega janeiro. O círculo vicioso recomeça. É preciso comprar para que o comércio não esfrie.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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