Walter Cabral de Moura 2 de fevereiro de 2008

Já fui bom folião:
pirata, confete
cigano, serpentina
índio, alcalóide
eu mesmo, alka-seltzer.

“Que palhaço mais triste!”
apontou na rua um garoto
(era de mim que falava);
desde então cansei
da alegria obrigatória
com hora marcada,
com data certa.

Já não sou bom folião:
aborreço o carnaval
(que é todo ano, igual)
embora goste do Galo
da Madrugada do sábado
quando encontra o povo ávido;

de Pitombeiras e Elefante
e do Bloco da Saudade
de Lenhadores, Batutas
de São José e outros tantos;
do Homem da Meia-Noite
do Bacalhau do Batata
e dos nomes curiosos
das troças da minha terra:
Lavadeiras de Areias,
Amantes das Flores,
Banhistas do Pina,
Cachorro do Homem do Miúdo,
Madeiras do Rosarinho…

Tudo isso me apraz
e não é só, e tem mais:
a la ursa, caboclinhos
com seus tristes tuiuís
batuque dos maracatus
(baque virado e rural)
frevos de bloco e rua –
Vassourinhas, esse hino
Evocação,tantos outros
(ai, meus tempos de menino
das matinês perfumadas
de onde sempre saía
com umas três namoradas
porém tudo se acabava
quando elas descobriam).

E também gosto do samba
principalmente o de bamba
tenha ou não mulher nua
além de, viva a Bahia!
trio elétrico, mas só ia
atrás do original.

De quase tudo, afinal
já deu pra notar que gosto
menos da hora marcada
do carnaval pontual
que assiste na tevê;
nem tampouco do show-biz
(não disse bis, e sim bi$)
que muitas vezes se vê.

Portanto, pra ser feliz
não precisa carnaval;
pra quem não tem alegria
inútil toda folia
mas, por mim, esses três dias
ditos de Momo, seriam
estendidos pelo ano
feito roupas num varal.

Domingo de carnaval de 2000.

wacmoura@nlink.com.br

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços
[slickr-flickr type=slideshow]