No último dia 6, com uma significativa celebração da Quarta Feira de Cinzas, iniciamos a Quaresma, o grande retiro espiritual da Igreja. Tempo de conversão, de ir ao deserto, de escuta atenta, de redescobrir e retomar nossa vida de batizados para chegarmos renovados à Páscoa da Ressurreição. Quaresma é uma excelente oportunidade para aprofundar o sentido e o valor do nosso ser de cristãos, e estimular-nos a fazer a experiência da misericórdia de Deus, a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com nossos irmãos e irmãs. É o grande momento em que os cristãos retomam a sua caminhada buscando através de atitudes, de gestos concretos, poder renovar o compromisso batismal na Vigília da Páscoa.

A Páscoa é a celebração central da liturgia e da vida da Igreja. Nós a retomamos a cada celebração, a cada evento, a cada anúncio, pois realmente Cristo ressuscitou e está vivo entre nós, e em seu nome a pregação é feita a todas as pessoas, em todos os tempos e em todos os cantos do mundo.Foi esse o mandato de Jesus ressuscitado: “Ide pelo mundo inteiro…” Cristo ressuscitou e está vivo no meio de nós. Esta verdade é o núcleo e o coração de nossa fé. É isso que professamos tantas vezes: “Ele está no meio de nós!” É esta verdade que dá sentido a nossa vida de fé, a nossa pregação, ao nosso testemunho, pois assim afirma o apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios, “se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a nossa fé” e diz ainda mais: “se nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos. Mas não! Cristo ressuscitou”!(1Cor 15,14. 19). E nós cremos nisso.

Para que haja verdadeira renovação de nossas vidas, supõe-se que muitas atitudes nossas sejam renovadas. A cada ano a Conferência dos Bispos do Brasil propõe para todos os brasileiros uma reflexão neste tempo da Quaresma. É a Campanha da Fraternidade que neste ano tem como tema: Fraternidade e defesa da Vida e como lema: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). A introdução do Texto Base nos recorda que durante vários anos, em campanhas anteriores, já se tratou sobre a vida a partir de vários enfoques, mas não com a abrangência com que vem tratando neste ano de 2008. A escolha do tema deste ano é a “expressão da preocupação com a vida humana ameaçada desde o início por causa do aborto até sua consumação com vista da eutanásia”.

Para todos nós a Campanha da Fraternidade propõe “caminhos de conversão e de transformação da sociedade a fim de que a pessoa humana seja sempre valorizada em sua plenitude, conforme sua natureza e a vontade de Deus, de modo que a vida seja um dos principais fundamentos da escala de valores que marca nosso existir e determina nosso agir”.

O objetivo da Campanha da Fraternidade de 2008 é impulsionar todos os cristãos e pessoas de boa vontade à promoção e à defesa da vida humana, desde a sua concepção até o seu ocaso ou seu fim natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos na busca de sua plenificação, a partir da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias e do compromisso ético do amor fraterno. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em plenitude”. “Amai-vos como eu vos amei”.

Estamos todos conscientes de que as ameaças à vida estão aumentando a cada dia. Em muitos paises, tornam-se cada vez mais intensas as campanhas para a legalização do aborto e também da eutanásia. Mas o problema não se limita a isso. Nos outros estágios da existência, a vida é também ameaçada por causa do individualismo e do egoísmo, da miséria, da fome, da violência, das doenças que atingem milhões de pessoas, da falta de assistência à saúde, da falta de moradia digna, da destruição do meio ambiente e por tantas outras causas. Falta compromisso dos governantes, dos poderes públicos no sentido de valorizar a vida oferecendo possibilidades para que todos possam ter trabalho, educação, acesso à saúde em vista de uma melhor qualidade de vida, em vista de uma vida com maior sentido. Eis porque, meus irmãos e irmãs, somos convocados pela Igreja, nossa mãe, a colocar-nos em “defesa da vida”, expressão que significa luta contra tudo o que ameaça a vida. Luta para eliminar a cultura de morte e implantar uma cultura da vida, sem esquecer que para isso é necessário que também nos empenhemos em construir e cultivar uma cultura de paz.

A Campanha da Fraternidade em sintonia com o Documento de Aparecida nos lembra que também hoje, como no passado, somos chamados a “escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (cf DT 30,15). Escolher a vida ou a morte é uma decisão pessoal. E é claro que todos nós queremos responder ao incisivo apelo que Deus nos dirige agora: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

O Documento de Aparecida nos lembra ainda e o Papa Bento XVI na mensagem enviada para a abertura da Campanha, por sua vez, também nos alerta que o encontro com Cristo é o ponto de partida para a negação dos caminhos de morte e a escolha do caminho da vida. O encontro com Cristo é o ponto de onde partimos para reconhecer plenamente a sacralidade da vida e a dignidade da pessoa humana, mas esse reconhecimento não é exclusivo às pessoas de fé. Todo ser humano, independente da fé que professa, traz, em seu coração, o desejo de ter essa sacralidade e essa dignidade reconhecidas.

Na introdução da encíclica Evangelium Vitae – o Evangelho da Vida, o Papa João Paulo II nos lembrava: “Ao apresentar o núcleo de sua missão redentora, Jesus disse: ‘Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância’ (Jo 10,10). São as mesmas palavras que ouvimos a pouco na proclamação do Evangelho. Ao falar dessa vida, continua o Papa, Jesus fala daquela vida nova e eterna, a qual todos nós somos gratuitamente chamados no Filho, por obra do Espírito Santificador. Mas é precisamente em tal vida que todos os aspectos e momentos ou etapas da vida da pessoa adquirem pleno significado. A pessoa humana é chamada a uma plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus”. Em sintonia com este ensinamento de João Paulo II, O Papa Bento XVI, há poucos dias, falando a um congresso organizado pela Academia das Ciências de Paris, dizia: “O homem vai muito além do que se pode ver ou do que se pode perceber pela experiência. Descuidar da questão sobre o ser humano leva inegavelmente a negar a busca da verdade objetiva sobre o ser em sua integridade e, deste modo, à incapacidade para se reconhecer o fundamento sobre o qual se apóia a dignidade do homem, de todo homem, desde sua fase embrionária até sua morte natural”.

Meus irmãos e minhas irmãs, eis diante de nós o apelo que Deus nos faz nesta Quaresma: trabalhar numa campanha para construir a fraternidade e defender a vida em todas as suas etapas. Tendo os olhos fixos em Jesus que veio “para que todos tenham vida e a tenham em plenitude”, como discípulos e discípulas, acolhamos no coração, com alegria e generosa disponibilidade, o apelo que o Senhor nos faz: “Escolhe, pois, a vida”!

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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