Djanira Silva 9 de fevereiro de 2008

A mulher acordou desorientada. Uma pontada no ventre, dor quase insuportável. Encolheu as pernas, pressionou a barriga. Precisava ir, com urgência, ao sanitário.
Tentou se levantar, não conseguiu, mal podia respirar.
Chegou minha hora uma dor assim deve ser a da morte
Pegou a lanterna na mesa de cabeceira, um presente da nora:
– Para a senhora usar quando se levantar à noite.
Sabia que não era por carinho nem cuidado, era para não acender a luz.
A necessidade de ir ao sanitário aumentou. Com dificuldade caminhou por entre os móveis da sala temendo esbarrar em algum, fazer barulho, incomodar.
Ficou desesperada quando acionou a descarga. Seca, totalmente seca. A torneira da pia, também. Ao abri-la chiou num risinho miúdo feito um deboche.
Ao voltar para o quarto escutou o cachorro. Gania, fungava, fuçava por debaixo da porta. Misturado aos ganidos o barulho de vômito.
Sentou-se na cama. Deixou a porta entreaberta. Tirou a camisola molhada de um suor frio, visguento. As mãos e os pés gelados.
Ouviu vozes. A nora e o filho conversavam, ouviu bem, falavam do cachorro:
– Acho que ele está doente, deve ser dor de barriga.
– Se adoecer a culpa é da sua mãe deu a ele pirão do cozido.
– Ela também comeu.
-De teimosa, sabe que não pode. Bem feito se também adoecer.
Abriram a porta da cozinha. Falaram com o animal como quem fala com uma criança. Ficaram alguns minutos esperando que se acalmasse. Voltaram para o quarto.
– Com o elixir paregórico ele vai melhorar.

A mulher voltou a sentir a cólica cada vez mais forte. Comprimiu o rosto com o travesseiro para abafar os gemidos. Não queria incomodar.
Invejou o cachorro, o carinho, o remédio, a paciência com que o tratavam. Chorou. O corpo inteiro tremia sacudido pelos soluços, enregelado pelo frio e pela dor.
Deitou-se. Fechou os olhos. Caminhou para trás.
O filho pequeno a caminho da escola, de farda azul e branca enfrentaria os primeiros medos: de atravessar a rua, de ficar sozinho na escola. Orgulhosa, segurava-lhe a mão com firmeza e doçura.

Agora, frágil e sem coragem precisava atravessar a sala. Também tinha medo, da indiferença, da solidão, das lembranças, dos fantasmas do passado.
Deu alguns passos. O silêncio perigoso poderia trai-la. O cachorro, agora, fuçava embaixo da janela. Parecia pressenti-la a caminhar pela casa.
Voltou para o quarto. Sentou-se na cama. Uma agonia, um mal estar, um desespero. Não conseguia ficar parada. Com muito esforço pôs-se de pé. Parou na porta do quarto. A sala parecia maior. A lanterna pesava-lhe na mão. A ansiedade e a dor aumentavam a cada passo. As pernas tremiam. Se não caminhasse rápido não daria tempo. Suava e, mesmo se esforçando, não conseguia sufocar os gemidos, tinha medo que pudessem ouvi-la como ouviram os ganidos do cão. Se a escutassem, certamente se aborreceriam.
Mais uma vez conseguiu chegar ao sanitário. Ao passar pelo quarto ouviu o filho:
– Ela parece não estar bem.
Ela, era ela. A mãe, a sogra, a intrusa, a viúva que mal tinha onde morar. Aquela casa lhe pertencera. Achara melhor dá-la ao filho para livrá-lo das despesas com o inventário.
O suor escorria-lhe pelo corpo, empapava-lhe os cabelos, deixava-lhe as mãos e os braços cada vez mais frios. Se ao menos pudesse fazer um chá.
O cachorro parecia mais calmo. O elixir paregórico fizera efeito. Será que deixaram o vidro em cima da mesa? Poderia tomar uma dose. Teve medo de esbarrar nos móveis, fazer barulho, escutar a reclamação de todos os dias: Por que a senhora não faz suas necessidades antes de se deitar? Fica abrindo e fechando portas, não deixa ninguém dormir.
A cabeça rodava, a casa rodava, teve medo de cair, mal conseguia se manter de pé.
A porta do quarto estava cada vez mais distante. O cachorro seguia-lhe os passos, estava agora na porta da sala.
Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Pensou em chamar o filho.
Não, não posso, ele precisa dormir, levanta cedo.
Novamente no quarto, deitou-se. Não encontrava posição na cama cheia de espinhos. Pensou no dia seguinte, na vergonha de ter que enfrentar as pessoas. Sujara a camisola e os lençóis.

– Eu não disse que ela estava doente? Sujou tudo.
O corpo da mulher flutuou no silêncio, um silêncio profundo. Afinal, poderia dormir em paz. Já não sentia medo. Já não sentia nada.
Será que o cachorro melhorou?

A casa, as flores, o gramado, as crianças correndo, jogando bola. A mãe cantarolando no quintal. A alma, aos poucos, esquecendo o corpo.
Entregou-se ao tempo.
Um galo cantou. As estradas e as estrelas e muitas luas, e muitos sóis, e o cheiro de mato verde, e o cheiro de terra molhada, e o clarão da vida entraram pela janela.

O vento afastou as cortinas, abriu passagem para um outro dia.

([email protected])

Texto retirado do livro da autora – Memórias do Vento –

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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