Djanira Silva 26 de janeiro de 2008

Se Teodora tivesse se atrasado pelo menos um minuto, um minuto apenas, ao fechar a porta ou mesmo ajeitando os cabelos no espelho da sala, ou atando os cordões dos sapatos; se Teodora tivesse esperado pelo menos um minuto, um só, quando eu lhe disse “não vá”…
Voluntariosa, quando dizia “vou”, já estava indo. Nunca desistia. Quando me avisou que ia, ainda tentei detê-la: “por que a pressa, eu disse, estou com um mau pressentimento”. Rindo, brincando, ela me abraçou: “Joel, o profeta – sabe que não acredito em pressentimentos.” Às vezes eu me zangava quando ela me chamava de profeta, mas a suavidade da sua voz, o sorriso nos seus olhos, anulavam qualquer ressentimento.
Só acreditava no momento, no destino, no que tinha de ser. “Nem pense em me modificar. Serei sempre assim, importante, é o momento presente. O que sabemos do que virá? O que passou, passou.”
Ao abrir o portão, o rangido preguiçoso, me avisava de sua chagada. Os passos leves, ritmados, o perfume de lavanda, a voz alegre me chamando.
Nunca usava de rodeios para falar nem agir. Decidida, dizia: “Vou nadar”. “Com este frio?” “sim com este frio.” Ia.

O quarto onde dormia comunicava-se com o meu por uma pequena passagem onde ela colocara vasos com rosas e uma folhagem verde, exuberante.
Dormir, cada um em seu próprio quarto, fora uma de suas exigências quando casamos. Não abriria mão da vida que tinha antes. “Cama de casal, nunca”. Fechar uma porta, é criar um mundo, dizia ela com o sorriso nos olhos. A malícia de sempre. “Preciso fechar minhas portas”. A princípio relutei. Depois entendi. Quartos separados, ligados apenas pelo pequeno jardim, quebravam a monotonia. Quando surgia na porta, vestindo roupas sumárias, coberta apenas por uma túnica negra ou vermelha, branca ou de qualquer cor, não precisava falar. Seus olhos riam antes dos lábios.

Se naquela tarde Teodora tivesse se detido por um momento apenas…
Uma porta bateu e eu a imaginei voltando. Continuei, esperando. “Você gosta de se enganar,” dizia ela, e era isto o que eu estava fazendo. Fiquei parado por muito tempo mesmo sabendo que não adiantavam os enganos.
“Não vá Teodora, não vá”. Sentia que ela não deveria ir. A dor doía no corpo e na alma, embaçava-me a visão, dava-me tristeza fazendo-me chorar. Ouvi minha voz, insistindo: “Não vá, Teodora, não vá.”

Sua imagem surgia em fachos de luz como um relâmpago ou mesmo a luz de um fósforo riscado na escuridão alumiando o último olhar sorridente, os gestos leves.
O som crescia, surdo a princípio, estridente em seguida. A voz de um desespero perdido, de uma dor que aos poucos ia desbotando e eu sabia que também estava indo, na imagem da mulher que há poucos instantes passara por mim, acariciara meus cabelos e dissera: vou caminhar. “Agora não, Teodora. Espere um pouco.” “Por que Joel?” “Por que não parar um minuto, apenas um minuto, para anular o pressentimento?” Ela riu mais uma vez. Não pude ver o riso dos seus olhos.
O portão bateu de leve. Ouvi ainda sua voz: “já vou.”
O barulho, o som estridente de um freio brusco o grito, o silêncio. Se Teodora tivesse se atrasado pelo menos um minuto, um minuto apenas…


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Obs: Texto publicado no livro da autora – O Olho do Girassol –

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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