Lavagem e devoção

Mais uma vez o povo baiano sobe a colina sagrada para reverenciar o Senhor do Bonfim, essa legítima devoção baiana. As velhas crônicas da cidade relatam que a imagem foi trazida de Lisboa no ano de 1745 pelo capitão de mar e guerra Theodorico ou Theodosio Rodrigues de Faria, que era um grande devoto do Senhor Crucificado em Portugal na capela de Setúbal. A imagem foi colocada, a princípio, na capelinha da Penha, e só depois transportada para um lugar de destaque, no atual local onde foi edificada a igreja tradicional.Após as celebrações dos Reis Magos, começou a tradição das festividades que perduram até os nossos dias. Os romeiros logos brotaram de todas as partes .Foi, então, construída uma casa especial para eles. E os milagres de ontem são acompanhados dos milagres de hoje.Basta ver a Sala dos Milagres com os testemunhos dos ex-votos.

Essa lavagem tem suas raízes e seus precedentes na metrópole portuguesa , nem sempre bem aceita pelos senhores bispos. Conforme Xavier Marques , em 1534, o bispo de Évora já queria interditar a lavagem alegando falta de respeito ao templo: “Defendemos a todas as pessoas eclesiásticas e populares , de qualquer estado ou condição que sejam, que não comam nas igrejas, nem bebam, nem em seus adros, nem os leigos façam os ajuntamentos dentro delas sobre cousas profanas (… )sem nossa especial licença, porque de tais atos se seguem muitos inconvenientes ( … ) e trazem o escândalo naqueles que não estão mui firmes na fé”. Aqui na Bahia também já houve proibição, em 1889, por portaria do então arcebispo D. Antonio Luiz dos Santos. Mas os excessos foram controlados, sem os exageros anunciados, e representa uma larga expansão da alma popular, onde o congraçamento de crenças converge fazendo daquele momento um encontro religioso, lúdico, místico e mítico com todas as apropriações que se possa imaginar e, inclusive, a política.

A igreja do Bonfim, apesar de não ser das mais antigas, parece ser a mais popular, chegando a representar um distintivo de “baianidade” e ponto indispensável na passagem dos turistas que vêm a Salvador. É como ir a Roma e não ver o Papa…
O culto ao Senhor do Bonfim, como a maioria dos cultos do catolicismo barroco e pós-barroco, tudo veio de Portugal e lá, evidentemente, esses cultos tiveram uma história. Essa devoção ao Senhor Crucificado teve início em Portugal quando entre 1669-1670, pequenos agricultores que viviam do produto de suas hortas em Setúbal, ergueram uma ermida sob a invocação do Anjo da Guarda. Há muitos fatos comuns na origem de muitas imagens. Conhecemos como surgiu a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A do Senhor do Bonfim em Setúbal teve origem semelhante. Uma mulher recolheu na praia, entre pedaços de madeira e outros destroços, aquela imagem, o que era um fato comum quando aconteciam os naufrágios. A imagem foi colocada em lugar de destaque e logo os milagres aconteceram. A fama foi tal que a capela incorporou o nome do Senhor do Bonfim.

A que veio para Salvador é uma réplica daquela que está em Portugal. A construção da igreja foi concluída em 24 de junho de 1754, ocasião em que também foi entronizada a imagem de nossa Senhora da Guia. Por esse motivo, durante anos a festa foi sempre celebrada em junho. Mas o arcebispo D. Sebastião Monteiro da Vide foi quem a transferiu para o segundo domingo de janeiro.

A imagem do Bonfim está sempre presente para receber os visitantes e peregrinos. De lá nunca sai, a não ser em raras exceções como calamidades públicas, motivos penitenciais, jubileus e a visita do Papa ( como foi feito com João Paulo II).
Nina Rodrigues, em 1935, no jornal Renascença, informa:
“O mais milagroso e festejado dos santos que temos nesta cidade é, sem dúvida, o Senhor do Bonfim, cuja rica igreja está colocada no aprazível arrabalde que tem seu nome. Toda sexta feira, dia que lhe é consagrado, uma romaria de povo a bonde, a carro ou a pé descalço dirige-se logo pela madrugada à igreja miraculosa para ouvir as pomposas missas que são ditas nesse dia, levando garrafas de azeite, velas ou milagres que consistem em quadros e peças de cera representando moléstias e desgraças sucedidas aos seus portadores e das quais se livraram com vida, graças à intervenção do bondoso Senhor”.
Que o Senhor do Bonfim , mais uma vez, abençõe o povo baiano e todos os que forem à Colina Sagrada.

Professor de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris. Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro. 

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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