Dasilva 27 de novembro de 2006

Nas atividades de formação, gastamos muito tempo para que as pessoas se apresentem, se tornem presentes. No comum, elas não falam de si, do que são, do que pensam, do que sentem. Preferem realçar seu cargo, as funções que conferem status, a diferença que mostra sua superioridade. Uma vez, uma pessoa, para impressionar o público, se apresentou dizendo que ele era o líder dos líderes. Parece que as pessoas aprenderam a não gostar de si e a incorporar uma personagem, porque fica melhor na fita.

O segundo passo é desmontar esse teatro que como uma carapaça, é feita para blindar ou engrandecer o caramujo. Uma vez, quando pedi que as pessoas dissessem seu nome, uma senhora toda envergonhada, foi logo confessando que odiava seu nome. Insisti e ela mal disse que seu nome era Sincera. Por sorte, alguém sabia da história de um bom artesão que fabricava móveis bonitos e lustrosos. Para atender a demanda crescente, passou a usar uma espécie de verniz para agilizar o brilho do móvel. Pegou mal porque quando a mesa recebia uma panela quente, seu brilho ia por água abaixo. Então, a encomenda da próxima freguesa já vinha com a advertência – quero uma mesa, mas quero uma mesa sine cera (quer dizer, sem cera, sem maquiagem). Dona Sincera exultou de alegria, recuperou sua auto-estima, afinal até seu nome exalava verdade!

Para aprofundar, costumamos explicar que em toda atividade de educação, deve sempre aparecer a pessoa que tem um corpo, um pensamento, um coração. Sua identidade as torna uma estrela, nascida para brilhar. Que o espaço educativo nunca pode se chamar de auditório (lugar para ouvir), nem as pessoas podem ser chamadas de alunas (sem luz), tabula rasa (ignorante), cliente, platéia… As pessoas são partes, participantes que, se conhecendo e conhecendo outras partes, podem deixar de ser estranhas e, na confiança de uma mesma inspiração (cum+ inspiratione), podem formar uma solidária constelação, onde todas brilham.
Para problematizar, então, falamos da origem da palavra personna que, em português, se traduz por pessoa ou por personagem, máscara. Seria falso apresentar só a personagem, botar uma máscara como se fôssemos atores e atrizes? Atores e atrizes, a maior parte das vezes, representam sem identificar-se com seus personagens. A maquiagem se usa quando se quer impressionar, defender-se ou porque ainda não se construiu um lastro de confiança sine+cera, onde se possa expor, sem medo, nossa pessoa desnudada, tal qual nasceu e se fez. Além disso, em todos os tempos, o disfarce (fábulas, anedotas, parábolas, caricaturas, comédias, palhaços, bobos-da-corte…) serviu como instrumento para dizer verdades – rindo, chorando, dramatizando – numa forma e num momento em que não falar direto era mais eficaz.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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