Mulheres bonitas deveriam ser terminantemente proibidas de viajar de avião. Como uma lei neste sentido me parece pouco plausível, acredito que as companhias aéreas poderiam, pelo menos, criar uma área diferenciada dentro da aeronave para abrigar essas criaturas. Similar ao que acontecia antigamente, quando havia divisão entre fumantes e não-fumantes.

Quando você senta em uma poltrona de avião e puxa uma revista ou um livro, é porque você quer ler. Quando você fecha os olhos e encosta o quengo na poltrona, é porque você quer dormir. Simples assim. Agora, se uma mulher bonita estiver ao seu lado, você não consegue nem dormir e, muito menos, se concentrar em qualquer tipo de leitura.

Não é uma questão de egoísmo. É de segurança pública. Na balbúrdia que uma mulher bonita e cheirosa pode causar entre os comissários de vôo, toda a tripulação pode ser colocada em risco. Certamente, um dos comissários vai entrar na cabine e falar para o piloto: “meu irmão, tem uma galega incrível na poltrona 49E. E do lado dela tem um baixinho peludo que não consegue tirar o olho do decote, vai lá dar uma olhada”.
Em casos assim, não duvide. O piloto e o co-piloto vão arrumar um argumento para ir até o fundo do avião só para verificar o outro avião. E nesse vai-e-vem, reafirmo que toda a tripulação pode estar em perigo de turbulências inesperadas por causa de uma criatura que foi agraciada pela natureza com um belo par de coxas e outros atributos.

Se a dita cuja estiver de decote, sentada na poltrona, quem estiver de pé no corredor tem uma vista panorâmica privilegiada. Podem prestar atenção: em corredor com mulher bonita, o movimento nos banheiros é sempre maior. Porque é o único argumento que a gente tem para se levantar e poder ter uma vista da natureza sem ninguém nos perceber. E, novamente, uma turbulência na hora do vai-e-vem do povo querendo ver o decote pode colocar em risco toda a segurança do vôo. Tem avião caindo no mar por muito menos.

Como desgraça pouca é bobagem, mulheres muito bonitas que ainda por cima sejam simples e simpáticas (estão em extinção) também deveriam ser enquadradas como semi-terroristas em aviões e, oxalá, viajar no compartimento de carga. Por um simples motivo. Se eu estiver sentado ao lado de uma dessas figuras raras e, por acaso, a aeromoça se aproximar dizendo que eu devo sair dali para ceder lugar a uma velhinha ou a uma grávida, eu certamente vou invocar todos os tratados internacionais sobre direitos humanos e liberdade de expressão para permanecer no meu lugar, gerando um desconforto em pleno vôo. Um cara mais afoito pode, por brincadeira, dizer que só sai dali debaixo de bala. E alguém pode levar a sério.

Caras de umas, cabeças de outras –

Escrevendo estas parcas linhas, lembrei-me agora de um vôo, anos atrás, voltando para Recife de uma viagem a trabalho. Lá estava eu como o último da fila para entrar no avião, sem cadeiras marcadas. Era um vôo curto, no qual infelizmente deu pane no sistema da companhia aérea e os passageiros ficaram sem marcações. Sendo o último a entrar, certamente não haveria de ter muitas opções de assentos.

Vôo lotado. Na última fileira, um assento vazio que só faltava ter uma placa com o aviso: “não sente aqui” . Mas, era o último lugar, o que há de se fazer. Uma mulher maravilhosa aguardava, pacientemente, olhando pela janelinha. Certamente, com a mesma dúvida sobre quem seria o inconveniente a sentar-se ali e, lógico, ela deveria pensar que, se fosse homem, o mané tentaria puxar conversa e passar aquelas cantadas baratas. Ciente disto, eu já sentei de cara feia (o padrão) crente de que não ia dizer sequer um “oi”. Apenas tentaria concentrar-me nas minhas tirinhas do Dilbert que tinha ganho de presente horas antes.

O problema é que nem o maldito Dilbert conseguiu ser páreo para a proporção daquele decote. Depois de dez minutos, deixei o Dilbert de lado e fiquei sem fazer nada, olhando para o teto. E foi quando os problemas pioraram. A decotada dos infernos também estava inquieta. Olhava para um lado, olhava para o outro, mexia nos cabelos. Nesse mútuo lenga-lenga, restavam apenas 20 minutos para o término da tortura aérea.
De vez em quando, a decotada olhava para o meu lado e abria a boca como se fosse falar alguma coisa, mas desistia. A essas alturas, diante da minha habitual “ineficiência masculina de abordagem amistosa”, a criatura pegou da bolsa uma revista qualquer e fazia o mesmo que eu tentara fazer desde a decolagem: ler.
Aparentemente, ela conseguiu se entreter na leitura, enquanto eu só fazia questão de não dar o braço a torcer e continuava olhando apenas para o corredor e para o teto. Cinco minutos para o pouso. É agora ou nunca. A revista dela seria o argumento, eu poderia simplesmente perguntar qual era, pedir para olhar a capa e, nesse meio termo, dar uma última verificada na montanha decotal. Será que ela tinha e-mail? MSN? Ela podia até ficar com raiva, mas pelo menos terei história para contar aos netos. Pensei comigo mesmo que, afinal, de repente ela também poderia estar pensando o mesmo e estava apenas com vergonha de tomar a iniciativa.

Encho o peito de ar novamente, olho para o lado, olho para o decote maravilhoso e, em uma fração de milésimos de segundos, ela também olha para mim como que se esperasse por uma palavra amistosa qualquer.
Mas, e sempre há um mas, naquele ponto da fração de segundos meus olhos já fitavam outra direção que não tinha nada de decote. Estavam fixos em algo inacreditável, em repouso no colo daquela criatura. Sem reação, eu não acreditara no que via com os mesmos olhos que, minutos antes, devoravam mentalmente aquele decote. Ela estava lendo Caras. E lembrei que durante os quase 30 minutos anteriores, a criatura estava realmente entretida naquele bagulho.
Desisti e virei de lado, arrependido de ter perdido quase meia-hora sem ler minhas tirinhas do Dilbert. O avião pousou, levantei, peguei minha maleta, dei de costas e comecei a andar, indo embora da tortura dupla. E ela nem era loira, que coisa. Quando de repente sinto uma mão no ombro. Era a criatura, perguntando: “ei, a gente não se conhece de algum lugar? Você não é o…”

Após minha resposta antecipada de “sou não”, saí feliz da vida por ter exercido meu preconceito com morenas burras. Acho que, por uma questão de padronização social, só loiras têm esse direito imaculado de serem belas e burras. As demais, por uma simplória questão numérica e estatística, deveriam ao menos disfarçar e deixar para ler a Caras no salão de beleza ou no consultório da ginecologista.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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