O Potengi é triste,
O Potengi se alonga,
Como se recebesse lágrimas de todos os poetas.

Pelas cidades circulam jornais,
Fabricando notícias de guerra.

Nos jardins florescem rosas,
Nas maternidades também nascem crianças.

Nas praças, o amor,
Meninos em carrossel.

E há em cada lábio um sorriso,
Um belo sorriso como se fosse de paz.

Os poetas tristes
Não cantam,

Mas a vida caminha em seu destino,
Com os olhos cheios de esperança.

Na França começa a primavera
E as flores convidam para o amor.

Isto quer dizer que há quem pense na vida
E a semente da morte não deve ser plantada.

Os poetas alegres
Esperam e fazem poemas

Para que as flores não se transformem em grinaldas,
Para o enterro das noivas.

Porque elas ainda esperam beijos e carícias
Na hora em que todas as noivas são belas.

Os poetas alegres estão pedindo,
Os poetas alegres estão cantando.

Esther chora de cabelos despenteados,
Com os braços apoiados sobre a mesa.

Porque no chão onde suas mãos cavaram arroz
Nascem de aço tanques e granadas.

Os poetas alegres estão lutando,
Os poetas alegres não querem a morte.

Eles guardam bem claro na memória
As sirenes de alarme sobre Londres.

O heroísmo sereno das mães russas
E a surda revolta das francesas.

O grito angustiado das crianças,
Como pássaros mutilados nas calçadas.

O sopro do Mistral por sobre a Itália
Agasalhando corpos contraídos.

O sádico extermínio de Varsóvia
Silenciando os noturnos de Chopin.

A sombra de Isadora sobre a Acrópole
Num bailado de paz cobrindo Atenas.

A velha paciência dos chineses,
Com os olhos longos contemplando a terra.

Os poetas estão sentindo,
Os poetas alegres estão chorando.

Do vento vem uma canção
Espalhando esperanças pela Europa.

Amanhã colheremos tulipas,
Os moinhos de vento dançarão.

Camponesas de saias encarnadas,
Com baldes de água e banhar as flores.

E a Holanda exportará tulipas para a América,
Para os nossos poetas que choraram.

Os poetas alegres estão sentindo,
Eles não querem a morte.

Quando faço este poema,
Há um pássaro que canta.

No entanto, estou trancado numa sala,
Para que meu canto chegue aos meus irmãos.

Vêm notícias de morte pelos ares,
Para as crianças, para as flores, para os pássaros.

É cedo para a morte,
É bem cedo.

Somente o Potengi está comigo nesta hora,
Como se recebesse lágrimas de todos os poetas.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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